Medvedev e Keys correm por fora no US Open
Por José Nilton Dalcim
18 de agosto de 2019 às 22:35

Ninguém em são consciência pode achar que Daniil Medvedev teria algum favoritismo caso cruzasse o Big 3 nas quartas de final do US Open, mas a excepcional sequência de vitórias do russo de 23 anos nas últimas semanas, ainda por cima encarando o terrível verão do Hemisfério Norte, o colocam como a melhor alternativa do momento para uma ‘zebra’ em Flushing Meadows.

Medvedev jogou 18 partidas de simples em 20 dias, tendo ganhado 26 dos 30 sets que disputou. E garante que só sentiu um real problema físico nos últimos dois games da final deste domingo contra David Goffin, quando pela primeira vez veio uma cãibra. O russo chegará a Nova York como quem mais venceu não só na temporada (44) como também na quadra dura (31).

Ao entrar no top 5 do ranking nesta segunda-feira, será o cabeça 5 no US Open, o que indica possível duelo contra um adversário entre 9 e 12 do mundo nas oitavas antes de ter a chance de encarar um dos quatro primeiros do ranking nas quartas. É um caminho motivador para um tenista que tem apenas 11 vitórias em 22 jogos de Grand Slam e uma única vez chegou na quarta rodada, no Australian Open de janeiro.

Medvedev perdeu 3 dos 5 jogos contra Novak Djokovic, incluindo justamnte o de quatro sets em Melbourne; acabou de levar uma surra no primeiro duelo contra Rafael Nadal, na decisão de Montréal; e perdeu as três vezes que cruzou com Roger Federer, uma delas em Miami de março. Mas me parece líquido e certo que chegará cheio de si a Flushing Meadows. Se der sorte na formação da chave, melhor ainda.

Na decisão deste domingo em Cincinnati, fez um primeiro set de altos e baixos contra David Goffin, mostrando-se bem menos agressivo do que na véspera contra Djokovic. Obteve uma quebra, permitiu a reação mas foi muito superior no tiebreak. Aí começou o segundo set já com quebra e caminhou firme até ter 5/4 e saque. Os nervos deram 15-40 a Goffin, o russo destruiu a raquete mas então disparou quatro saques incríveis que só comprovam sua autoconfiança: um segundo serviço a quase 200 km/h no primeiro break-point e depois três aces.

Quem também ganhou direito de correr por fora no US Open foi Madison Keys, com a importante diferença de que ela já decidiu o Slam caseiro dois anos atrás, quando perdeu para Sloane Stephens. Com um estilo bem agressivo, que combinou muito bem com o piso veloz de Cincinnati, Keys sempre tomou a iniciatiava e foi assim que tirou do caminho Simona Halep, Garbine Muguruza, Venus Williams e a surpreendente Svetlana Kuznetova. Na final deste domingo, cravou 45 winners (contra 15), sendo 13 aces.

A tática da norte-americana de 24 anos e agora novamente top 10 do ranking foi bem curiosa, segundo ela própria: “Tentei não pensar demais”. Genial. Este foi seu quinto título da carreira e o mais importante.

Como cabeça 10 no US Open, Keys está em situação um tanto semelhante à de Medvedev, mas que me parece mais complicada. Pode jogar as oitavas contra uma adversária entre 5 e 8 do ranking (e ali estão Svitolina, Kvitova, Bertens e Serena) e então quartas diante de uma top 4 (Osaka, Barty, Pliskova ou Halep). É exatamente o mesmo caminho que Stephens terá de percorrer.

E mais
– Medvedev é primeiro russo a aparecer no top 5 desde Nikolay Davydenko, em 2010. No começo do ano, ocupava a 16ª colocação.
– Ele também está no quinto lugar na corrida por vaga no Finals e a chance aumentou muito: soma 3.605 pontos desde janeiro.
– Agora, são cinco russos a ter vencido Masters, série criada em 1990: Marat Safin (ganhou 5), Davydenko (3), Andrei Chesnokov (2) e Karen Khachanov (1) foram os outros.
– Só com o vice em Montréal e o título em Cincy, Medvedev embolsou US$ 1,64 mi, mais do que os US$ 1,63 mi do ano passado inteiro.
– Goffin diz que seu tênis voltou a reaparecer depois que contratou o sueco Thomas Johansson, logo depois de Indian Wells.
– O ranking da temporada feminina tem Barty com 5.236 pontos, mais de 500 à frente de Halep e a quase 700 de Pliskova.
– Apesar da boa campanha em Cincy, Bruno Soares deixará o top 10 nesta segunda-feira e irá para o 14º lugar. Ele e Mate Pavic são apenas 42º na corrida para Londres.
– A chave do US Open será sorteda na quinta-feira. João Menezes e Rogério Silva estreiam no quali na terça e podem se cruzar se chegarem à rodada final.

Festa russa em Cincinnati continua
Por José Nilton Dalcim
17 de agosto de 2019 às 23:02

Entre tantas surpresas que a temporada 2019 nos tem reservado, a virada de Daniil Medvedev em cima de Novak Djokovic na semifinal de Cincinnati está facilmente entre os resultados menos esperados. De repente, o sérvio perdeu a consistência e a confiança, dando ao russo forças inimagináveis para um final de partida soberbo.

Em sua terceira final em semanas consecutivas, agora com duas vitórias seguidas sobre o número 1 do mundo em pisos bem distintos, Medvedev terá uma nova chance de conquistar seu primeiro troféu de Masters 1000 e, por que não, se tornar a maior ameaça ao Big 3 no tão próximo US Open.

Uma coisa é certa: a temporada verá o terceiro campeão inédito de Masters, já que o outro finalista é o belga David Goffin, que nunca chegou tão longe nesse nível. Quem vencer, se juntará a Dominic Thiem (Indian Wells) e Fabio Fognini (Monte Carlo). Isso iguala 2017 (Alexander Zverev, Grigor Dimitrov e Jack Sock) e 2018 (Juan Martin Del Potro, John Isner e Karen Khachanov).

Assim como fez Nole ao final do jogo, teremos todos de cumprimentar Medvedev por sua resiliência. Foi jogado de um lado para outro no primeiro set, pediu atendimento para dor muscular no braço direito e fez coisas fora do seu padrão para se tornar competitivo, ora com curtinhas, ora com voleios. Cravou até ace de segundo saque. Bastou um vacilo de Djokovic, uma queda repentina de intensidade, para o russo obter a primeira quebra e ganhar vida nova. Dominou o jogo a partir daí com extrema coragem e empenho físico. Incrível.

Estará agora diante de Goffin pela terceira vez na temporada, tendo vencido em sets diretos no Australian Open e perdido um jogo duríssimo na terceira rodada de Wimbledon, em que chegou a liderar por 2 sets a 1. É meu favorito natural ao título, mas tudo indica que terá de jogar o máximo outra vez.

Aos 28 anos, Goffin parece ter se reencontrado e curiosamente não foi sobre o saibro, mas na grama, onde somou 10 vitórias, com vice em Halle e quartas em Wimbledon, o que o levou de volta ao top 20. Não por acaso, Cincinnati também é um piso bem mais veloz e ele tem feito um jogo propositivo. Dominou Richard Gasquet com 27 winners (contra 15) e 14 erros (frente 23).

Semi no ano passado, quando abandonou pela metade a partida contra Federer, Goffin enfim terá chance de conquistar um grande título, algo que escapou no Finals de 2017. Na verdade, ele não ganha um torneio há 22 meses. Possui apenas quatro troféus na carreira em 12 finais anteriores e um único ATP 500, em Tóquio.

Kuznetsova amplia festa russa
A chave feminina também tem um grande destaque russo: a veterana Svetlana Kuznetsova, de 34 anos, dá a volta por cima a uma fase cheia de problemas físicos e é responsável direta pela permanência de Naomi Osaka na liderança do ranking, já que acabou com o sonho de Karolina Pliskova e de Ash Barty. Aliás, sua campanha em Cincinnati inclui três vitórias sobre top 10.

Fato curioso, Sveta teve problemas com visto para entrar nos Estados Unidos e por isso não defendeu o título de Washington e quase encerrou o calendário. De volta ao top 70, enfrentará na decisão a tenista da casa Madison Keys, que também atravessa um ótimo momento e a quem jamais venceu em três duelos. Keys eliminou Simona Halep, Garbine Muguruza e Venus Williams. Precisa do maior título da carreira para retornar ao grupo das 10 melhores. Esta final promete.

E mais
– A semana incrível do tênis russo em Cincinnati teve também a vitória de Andrey Rublev sobre Federer e o duelo tenso e confuso de Khachanov em cima de Nick Kyrgios.
– Medvedev é o tenista com maior número de vitórias na temporada, com 43, uma a mais que Rafael Nadal e três sobre Roger Federer.
– Ele também lidera em triunfos na quadra dura, agora com 30, bem cima das 20 de Bautista Agut e Stefanos Tsitsipas.
– Goffin enfim chega a sua primeira final de Masters depois de quatro tentativas frustradas. Saindo do saibro em junho, era 33º do mundo, sua mais baixa classificação desde 2014.
– Nadal chegará ao US Open como líder do ranking da temporada, 140 pontos à frente de Djokovic, o que é mais um ingrediente saboroso para Nova York.
– Thiago Monteiro irá reaparecer no top 100 na segunda-feira. Conseguiu vaga direta e joga o ATP 250 de Winston antes do US Open, mas a estreia é dura contra o garoto australiano Alexei Popyrin.

Medvedev, o novo ironman russo
Por José Nilton Dalcim
17 de agosto de 2019 às 00:27

Se competir em alto nível por dois torneios seguidos tem sido difícil no circuito masculino atual, imagine então o que é disputar 14 partidas de simples em três semanas sucessivas, com duas finais e agora uma semi. E olha que o piso duro, como os de Washington, Montréal e Cincinnati, machuca mais o corpo do que qualquer outro.

Daniil Medvedev está surpreso até consigo mesmo pela qualidade e tenacidade de seu tênis, a ponto de sequer ter perdido sets em Cincy até agora. Na verdade, ele ganhou nada menos do que 24 dos 28 sets que disputou nessa trajetória incrível na temporada de verão da quadra sintética.

Esta foi sua 42ª vitória em 58 jogos na temporada, lembrando os ‘ironmen’ russos, como Yevgeny Kafelnikov e Nikolay Davydenko. Contemporâneo de Guga Kuerten, Kafelnikov assombrou mais de 80 partidas feitas por seis temporadas seguidas, chegando a 105 tanto em 1995 como em 1996.

É importante observar ainda o estilo um tanto atípico de Medvedev, com opção por bolas muito retas dos dois lados, saque forçado e movimentação admirável para quem mede 1,98m. Será suficiente para repetir a inesperada vitória sobre Novak Djokovic no lento saibro de Monte Carlo de abril? É uma boa pergunta, e eu diria que sua chance está num alto percentual de primeiro saque e na determinação de arriscar backhand na paralela o mais cedo possível.

Se Medvedev atropelou o amigo Andrey Rublev, que não foi sequer sombra do tenista veloz e determinado que surpreendeu Roger Federer na véspera, Djokovic foi exigido por um primeiro set de grande qualidade de Lucas Pouille, mas deu pequeno susto ao pedir atendimento para o cotovelo direito no finzinho da partida. Felizmente, completou a vitória nos dois games seguintes sem sinal de dor.

Tenista de recursos, Pouille foi totalmente diferente daquele que levou surra em Melbourne. Sacou bem, ousou na rede, usou curtas e forçou paralelas. Falhou na parte mental, o que nem é tão novidade assim, e cometeu uma sucessão absurda de erros no tiebreak, justamente onde o emocional é tão necessário. E força mental sobra para o líder do ranking.

Djokovic vai em busca da 50ª final de Masters da carreira em sua 66ª semi. Se vencer às 19h deste sábado, retoma a liderança do ranking da temporada, com vantagem de 100 pontos sobre Rafael Nadal, que pode subir a 500 se levar o bi em Cincinnati e se tornar o único profissional com ao menos dois troféus em cada Masters. É um final de semana especial.

Semi inesperada
A outra semi é daquelas que dificilmente alguém imaginaria quando a chave foi sorteada, ainda que o setor inferior tenha ficado capenga com a desistência de Rafael Nadal. Claro que envolverá dois ex-top 10 que já estiveram em várias semifinais de nível Masters e isso pode garantir um bom espetáculo.

Richard Gasquet já me chamou a atenção em Montréal, porque parecia menos medroso com o forehand, tendo tirado Paire e Nishikori antes de perder para o mesmo Roberto Bautista que dominou com louvor em Cincinnati. Usou desta vez um recurso interessante, que foi diminuir a potência dos golpes para tirar o contragolpe que o espanhol gosta tanto.

Saibrista que foi aos poucos moldando melhor seu tênis, David Goffin já havia feito grandes campanhas na grama, tanto em Halle como em Wimbledon, mas perdido nas estreias de Washington e Montréal. Nem precisou entrar em quadra, favorecido pelo abandono de Yoshihito Nishioka.

Não há favoritismo no terceiro duelo entre Goffin e Gasquet, empatado por 1 a 1, mas vale lembrar que o belga fez semi em Cincinnati no ano passado. Goffin nunca decidiu um Masters em quatro tentativas e Gasquet chega na sua primeira semi desde 2013, tendo sido finalista de Toronto em 2012, a terceira e mais recente que conseguiu.

Osaka torce duas vezes
Quando parecia estar reencontrando alegria de estar na quadra, justamente às vésperas de defender seu título no US Open, Naomi Osaka teve uma notícia ruim. Contundiu o joelho, abandonou as quartas de Cincinnati, pode perder a liderança do ranking se Ash Barty vencer neste sábado e, mais grave de tudo, agora vê sua presença no quarto Slam da temporada sob risco.

Com a desistência de Osaka, Sofia Kenin marcou sua sétima vitória sobre top 10 e a segunda seguida sobre uma líder do ranking em semanas consecutivas. Enfrenta agora Madison Keys, que tirou Venus Williams com a incrível diferença de 39 a 3 nos winners.

Muito mais magra, Svetlana Kuznetsova tirou a chance de Karolina Pliskova brigar pelo número 1. A experiente russa dona de dois Grand Slam já tirou três das 11 primeiras do ranking nesta semana e agora encara Barty, que marcou grande virada sobre Maria Sakkari.