Chegou a hora, Sinner?
Por José Nilton Dalcim
1 de abril de 2023 às 00:26

A vitória incontestável de Jannik Sinner sobre o número 1 do mundo Carlos Alcaraz numa disputadíssima semifinal de três horas e muitas reviravoltas em Miami só traz coisas boas para ele e para o circuito.

A mais importante delas foi a evidente aplicação tática do italiano e sua forma diferente de encarar o espanhol, que o havia derrotado duas semanas atrás, em Indian Wells. Com o triunfo gigante, Sinner confirma a evolução que tem mostrado em Miami e se candidata definitivamente a ser um dos destaques da temporada. Por fim, repete a final de 2021 e tem total direito de sonhar com seu maior troféu no domingo, diante de Daniil Medvedev.

Há muitos aspectos relevantes a ser apontados no sexto capítulo dessa batalha que já toma ares de épica, tamanha a qualidade técnica e o empenho físico dos dois. Sinner apostou corretamente nas devoluções forçadas desde o primeiro minuto e isso foi talvez a espinha dorsal da vitória. Porque não apenas impôs o padrão ofensivo que se sabia crucial para segurar o espanhol, como também obrigou o adversário a forçar o segundo saque e a cometer duplas faltas – nove no total – em momentos delicados.

Não foi só isso. Sinner também entrou decidido a atacar logo de cara o lado direito de Alcaraz, e com isso fez com que 26 dos 47 erros do espanhol viessem com o forehand. Também curiosa a postura diferenciada de Carlitos, que muitas vezes trocou bolas com muito mais spin do que o habitual, na tentativa de tirar a bola da altura da cintura e mudar o ritmo.

Por tudo isso, o primeiro set foi espetacular. Somadas às alternativas táticas, vieram lances de raríssima qualidade e alternância no placar. O italiano fez 3/1 e 4/2 – por muito pouco não virou 5/1 -, mas deu um mínimo vacilo que encheu Alcaraz de motivação. A reação foi fulminante, até 6/5 e saque, com direito a bola de set. Sinner lutou como um leão, levou ao tiebreak e abriu 4-2, mas aí o espanhol venceu todos os pontos seguintes.

Em outra questão louvável, Sinner não baixou a guarda como aconteceu após o tiebreak perdido de Indian Wells. Ao contrário, abriu 2/0 no segundo set. Outra vez vieram os altos e baixos, o primeiro saque não funcionou e foi preciso muito sangue frio para escapar dos dois break-points do oitavo game que fatalmente determinariam 5/3 e saque para o cabeça 1, que então fazia defesas infernais.

Se olharmos com calma, foi aí que se definiu a vitória de Sinner. Quebrou imediatamente o serviço, concluiu o set com saque preciso e abriu a série decisiva tirando o serviço cada vez mais irregular de Alcaraz. Ainda houve um perigoso break-point que daria o empate no sexto game, mas o espanhol desperdiçou com backhand na rede após um segundo serviço ‘kick’ magnífico do italiano.

Os últimos elogios necessários a Sinner estão no aproveitamento do primeiro serviço, muito superior ao de Alcaraz – e vimos também escolha bem feita pelo saque ao centro – e à leitura muito apurada das deixadas, o que foi complementada com ótimo deslocamento para a frente.

Agora, vem outro desafio. Afinal, Medvedev ganhou todos os cinco duelos, incluindo recente final em Roterdã, que veio de virada. Observe-se no entanto que todos esses jogos aconteceram em piso sintético coberto, onde obviamente a bola anda mais do que em Miami.

O russo continua em momento especial. Fará sua quinta final consecutiva, vindo de três títulos e o vice na Califórnia, onde deixou escapar o quinto troféu de nível Masters. No duelo diante de Karen Khachanov, o número 5 do ranking sacou para fechar o primeiro set com 5/3 e falhou feio, precisando do tiebreak após cometer 19 erros e fazer 14 winners. O segundo set viu Khachanov mais esperto nos primeiros games e menos apressado. E talvez a história tivesse sido outra, caso Khachanov aproveitasse o break-point na abertura do terceiro set. Daí em diante, Medvedev sacou cada vez melhor e mereceu.

O sábado nos reserva uma interessante final feminina e, tal qual o masculino, haverá uma nova campeã em Miami. Elena Rybakina não foi tão dominante em sua semi de sexta-feira diante de Jessica Pegula, num jogo irregular dos dois lados, mas se candidata a fazer o ‘Sunshine Double’ e dar mais um passo no ranking, mirando o sexto posto.

Sua adversária é a experiente Petra Kvitova. A canhota tcheca não começou bem, viu Sorana Cirstea sacar com 5/2 no primeiro set e então encaixou cinco games seguidos no seu melhor estilo ofensivo. Vai ser muito divertido assistir à outra importante final feminina com duas tenistas que buscam o ponto o tempo inteiro. O histórico é pequeno, 1 a 1. Espere-se muitas reviravoltas entre duas jogadoras que sabem manter a cabeça quando estão atrás do placar.

Capítulo seis
Por José Nilton Dalcim
31 de março de 2023 às 00:07

O mais provável grande duelo dos próximos anos do circuito masculino chegará ao sexto capítulo nesta sexta-feira, quando Carlos Alcaraz, 19 anos, e Jannik Sinner, 21, voltarão a se cruzar numa rodada importante de um torneio gigante.

É bem verdade que o histórico entre eles começou até antes, no quali de nível challenger em Alicante, ainda em 2019, mas a ATP não costuma considerar eventos fora do circuito principal em suas estatísticas. Assim, Alcaraz não contabiliza essa vitória de três sets e lidera por apertados 3 a 2.

São dois tenistas da melhor qualidade, com estilos ofensivos mas distintos, em que é essencial não desperdiçar oportunidades. É relevante o fato de o espanhol ter obtido todas suas vitórias no piso sintético, entre elas a semi de Indian Wells de duas semanas atrás, em que o primeiro set teve diferença mínima e o tiebreak se mostrou crucial. Alcaraz também venceu muito suado nas quartas do US Open do ano passado, num dos grandes jogos da temporada, em que Sinner chegou a ter 2 sets a 1.

O italiano havia vencido duas vezes um pouco antes, na grama de Wimbledon, onde inesperadamente se mostrou menos tenso e mais sólido, e fez uma apresentação notável na decisão sobre o saibro de Umag. Havia perdido o tiebreak, mas atropelou em seguida por duplo 6/1 com uma soberania assustadora da base e um show de deixadinhas.

Então não deveria haver muito segredo para o reencontro na rodada noturna desta sexta-feira, mas há diferenças que considero relevantes. Alcaraz está mais firme na parte ofensiva do que em Indian Wells e Sinner me parece em confiança progressiva, o que lhe permitiu algumas variações ao longo da campanha em Miami, onde atingiu a final há dois anos. O piso no entanto está realmente mais veloz e ele sabe que não pode deixar Alcaraz comandar os pontos. Então, há uma chance de vermos novas estratégias, o que será delicioso.

Nas duas últimas rodadas, o número 1 do mundo teve desempenho magnífico. Cometeu é claro um número significativo de erros não forçados, típico de quem arrisca mais, porém se impôs de forma límpida diante do jogo de base de Tommy Paul e da pancadaria frente a Taylor Fritz. Continua aliás sem perder set na quadra dura. Sinner também me agradou demais, acima de tudo pela forma com que barrou Andrey Rublev, combinação perfeita de saque eficiente e segunda bola determinada.

A semifinal russa entre Daniil Medvedev e Karen Khachanov é bem menos atraente, confesso. Afinal, é de se esperar um duelo de força pura, em que a diferença mais relevante é ver Daniil se esmerando para entrar nos pontos lá de trás e Khachanov bem mais pertinho da linha na busca por cortar o tempo.

O Urso tem levado vantagem, com placar de 3 a 1, embora a ATP insista em colocar o NextGen na conta, o que não concordo pela diferença gritante de forma de disputa. Khachanov vem empolgado depois de ter encerrado um amargo jejum de 23 derrotas seguidas para adversários top 10 antes de enfim bater o desanimado Stefanos Tsitsipas.

O que Eubanks tem de especial?
Por José Nilton Dalcim
29 de março de 2023 às 10:25

A mudança da velocidade de piso de um lugar tradicionalmente tão úmido como Miami talvez seja a explicação mais razoável para a sucessão de surpresas que acomete as duas chaves deste o começo da competição.

Christopher Eubanks é certamente a maior delas e a primeira pergunta que se faz é: o que esse norte-americano de 26 anos e 2,01m tem de tão especial para estar em suas primeiras quartas de final de Masters 1000.

A rigor, nada. Oriundo do tênis universitário – foi jogador do ano por duas vezes pela Georgia Tech entre 2015 e 2017 -, ele é o clássico jogador norte-americano de saque afiado e forehand ofensivo, com subidas mais frequentes à rede, mas devolução e jogo de fundo irregulares, o que o leva a muitos tiebreaks. Sua média em nível ATP é de 11 aces por jogo e 82% de games de serviço convertidos. Conhecem alguém assim?

A inesperada campanha em Miami também teve uma certa dose de sorte. Passou o quali contra jogadores pouco conhecidos, pegou Denis Kudla para marcar sua primeira vitória em nível 1000 e aí sim mostrou físico e cabeça para tirar Borna Coric, ainda que o croata esteja longe do que já foi.

Passou pelos franceses Gregoire Barrere e Adrian Mannarino ganhando 3 de 4 tiebreaks. Vale lembrar que o já ‘trintão’ Barrere havia atropelado Cameron Norrie e o canhoto tirado Hubert Hurkacz. O duelo de Eubanks contra Mannarino viveu um dia infernal de chuva e tentativas de retorno, que se estendeu até o fim da noite. E não foi lá muito empolgante.

De qualquer forma, o tênis americano coloca dois nomes nas quartas de Miami. O problema é que ambos vão encarar os favoritos à final. Eubanks terá pela frente Daniil Medvedev e Taylor Fritz experimentará pela primeira vez como é enfrentar a versatilidade de Carlos Alcaraz. O espanhol continua arrancando aplausos com lances espetaculares, mas Fritz teve atuações consistentes diante de Denis Shapovalov e especialmente o temperamental Holger Rune.

Quem está realmente bem é o italiano Jannik Sinner. Depois de segurar Grigor Dimitrov, deu uma aula em cima de Andrey Rublev no quesito eficiência da base. É favorito natural diante de Emil Ruusuvuori, contra quem tem 4 a 0 e o curioso fato de ter eliminado o finlandês nas duas últimas edições de Miami. Ruusuvuori fez um grande torneio em 2021, em que tirou sucessivamente Alcaraz e Alexander Zverev, mas então numa quadra lenta.

Do outro lado da chave, Medvedev continua com tudo. Nem precisou entrar em quadra na véspera e chega nas quartas com apenas 33 games disputados. Se superar Eubanks na quinta-feira, terá Karen Khachanov ou Francisco Cerúndolo pela frente. É bem duro apostar contra o Urso nesta altura das surpresas.

A chave feminina por sua vez já definiu a primeira semifinal e deu a lógica. Mas de formas muito distintas. Se Elena Rybakina manteve seu padrão e não tomou conhecimento do tênis burocrático de Martina Trevisan, Jessica Pegula fez uma exibição muito irregular e passou no sufoco pela boa russa Anastasia Potapova, evitando dois match-points no saque adversário no 10º game. Se jogar nesse nível, vai ser difícil equilibrar set contra a embalada cazaque.

A outra vaga será definida nesta quarta-feira. Aryna Sabalenka tem amplo favoritismo sobre Sorana Cirstea, principalmente pelo alto nível que demonstra desde Indian Wells, e Petra Kvitova faz um jogo perigoso contra Ekaterina Alexandrova, principalmente porque as duas adoram pontos curtos. E, com pouco ritmo, deixam tudo imprevisível.