Momentos de festa
Por José Nilton Dalcim
27 de novembro de 2022 às 22:10

Estava escrito: o Canadá chegaria em algum momento ao tão sonhado título da Copa Davis. Isso já havia ficado provado na última ATP Cup, em que Felix Auger-Aliassime e Denis Shapovalov conduziram o jovem grupo à vitória em cima da Rússia e da Espanha. É acima de tudo um resultado muito merecido pelo grande trabalho desenvolvido pela Tennis Canada na renovação e apoio de seus jogadores.

Mas para ser sincero eu havia dito isso antes da mudança do regulamento da Davis. Imagina que a ascensão meteórica dos dois garotos, aliados à experiência de Milos Raonic e Vasek Pospisil, seria ingrediente para buscar o tão valioso troféu. Claro que, naquele sistema anterior, era preciso dar sorte para fugir dos pisos muito lentos e jogar em casa o máximo possível.

A ‘nova Davis’ padronizou as condições, o que tem até algum aspecto positivo, pois a partir das quartas de final, todos jogam no mesmo lugar e em idêntica condições. Mas o charme de escolher local e superfície se perdeu. Pior ainda, o Canadá levantou a taça em Málaga diante da Austrália e a comemoração coube a um punhado de torcedores, quando a final poderia levar milhares de pessoas a Montréal ou Toronto, servindo de grande incentivo ao tênis local e às novas gerações.

Se existe uma lógica que não entendo na ‘nova Davis’ é justamente a exposição dos patrocinadores mundiais da competição. Ao invés de estar em quatro países diferentes na rodada de quartas de final, cada um com provável estádio lotado e cobertura da tv local, corre-se o risco de ter um ginásio vazio e desinteressado conforme quem estiver em quadra. Na melhor das hipóteses, a aparição do patrocinador estará limitada para 25%.

De qualquer forma, Aliassime encerrou de forma espetacular sua ótima temporada 2022, em que subiu os degraus imaginados lá atrás, e acho que poderemos esperar ainda mais dele daqui em diante. Nesta Davis, jogou como autêntico top 10. Shapovalov só venceu um dos três jogos de simples que fez, mas justamente o mais importante, diante de Thanasi Kokkinakis no primeiro ponto deste domingo. As derrotas para Lorenzo Sonego e Jan-Lennard Struff foram apertadas. Quem sabe, ainda dê tempo para o habilidoso canhoto achar o caminho ideal.

Mineirinho em noite de gala
Uma noite de festa também aconteceu no sábado, em Belo Horizonte, quando o ginásio Mineirinho recebeu excelente público para dois momentos muito especiais. Bruno Soares, que havia se aposentado após o US Open, fez a despedida oficial diante da família, amigos e torcedores fieis.

O jogo em que disputou 12 games ao lado de Bob Bryan contra Marcelo Melo e Rafael Matos foi muito divertido, cheio de lances pirotécnicos, em que estava evidente o objetivo de todos em mostrar quanta habilidade possuem esses monstros da dupla. Melo e Bob aliás roubaram a cena. Depois, em atitude digna como foi toda sua carreira, Bruno pediu que Melo disputasse o tiebreak a seu lado, para ‘pendurar’ a raquete do jeito que ambos começaram, lá nos tempos de juvenil. Emocionante.

Aí entrou Rafael Nadal. O canhoto espanhol já havia cumprido extensa agenda na capital mineira e o cansaço da viagem desde Santiago ficou evidente. Ainda assim, não atrapalhou a festa. Casper Ruud jogou bem melhor no começo, Rafa achou o ritmo a partir do quarto game e fez um tiebreak curioso, em que a falta de pernas já o obrigava a tentar todo voleio possível.

O segundo set, é verdade, foi um tanto arrastado, com os dois forçando demais os pontos para compensar o desgaste, porém conseguiram divertir com lances de grande qualidade e sorriso sempre no rosto. Valeu a pena. Afinal, assistir ao recordista de Grand Slam em qualquer circunstância é algo especial e Rafa nunca escondeu seu carinho pelo público brasileiro, lugar onde conquistou três títulos importantes na sua inigualável carreira.

Ele, que começou a excursão em Buenos Aires, foi depois a Santiago e BH e ainda esticará as exibições para Bogotá e Quito. Calendário apertado.

Mestre Djokovic promete mais aulas em 2023
Por José Nilton Dalcim
20 de novembro de 2022 às 21:51

Novak Djokovic colocou mais uma dúvida na cabeça dos torcedores e analistas. Se já deve ser considerado o maior de todos os tempos por seus números inigualáveis, o troféu notável erguido neste domingo no ATP Finals serve para questionar quem foi enfim o grande tenista de 2022.

Nole jogou apenas 11 torneios e sua decisão de não se vacinar lhe custou a presença em eventos de peso, como o Australian Open e o US Open, assim como Miami, Indian Wells, Montréal e Cincinnati. Ainda assim, terminou como teórico segundo jogador com mais pontos somados, frutos de cinco títulos – Roma, Wimbledon e Finals entre eles -, além do vice em Bercy.

Se Wimbledon valesse os 2 mil pontos, estaria 80 à frente de Nadal, campeão de dois Slam entre seus 12 campeonatos feitos, e apenas 180 atrás de Carlos Alcaraz, que entrou em 17 torneios regulares e faturou um Slam e dois Masters. É de se imaginar o que poderia ter acontecido caso Djokovic tivesse feito um calendário normal.

De um jeito ou de outro, o sérvio atinge novos recordes: iguala Roger Federer como únicos hexacampeões do Finals, o torneio de maior prestígio da ATP, e se torna o de maior idade a fazê-lo, com seus 35 anos e meio. Ergueu o troféu invicto pela terceira vez, o que lhe rende o maior prêmio individual já pago no tênis em toda a Era Profissional, de US$ 4,74 milhões. Dono de 91 títulos, a conta centenária e a marca espetacular de 109 de Jimmy Connors já devem fazer cócegas.

Casper Ruud veio com a postura imaginada de tentar alongar pontos e se aproveitar do óbvio cansaço de Djokovic, e isso deu certo até o momento que o norueguês sentiu o peso do 12º game e, mesmo tendo feito 30-15, não se impôs. Aliás, essa foi uma constante na partida. Ruud raramente tomou a iniciativa, sua bola aliás encurtou inúmeras vezes e é completamente impensável alguém querer derrotar Djoko na regularidade. Faltou coragem a Ruud e sobraram garra e apuro tático ao sérvio, que não fugiu dos ralis mas sempre foi o que ousou.

Aliás, a campanha de Nole neste Finals teve essa marca. Ele quase nunca jogou em seu nível máximo, exceto por alguns games ou sets mais soltos, porém o tempo inteiro achou as soluções pertinentes e mostrou a tão conhecida capacidade de superar dificuldades. Entre elas, o desgaste físico que driblou com maestria tanto na semi como na decisão deste domingo. Não poderia haver outro campeão em Turim.

É bom tomar muito cuidado com Djokovic em 2023. O mestre parece pronto e sedento para continuar dando imperdíveis aulas.

Ram e Salisbury festejam
A reta final de temporada de Rajeev Ram e Joe Salisbury foi excelente. Campeões de Cincinnati e do US Open, eles superaram um pequeno período de baixo e venceram neste domingo o inédito ATP Finals, em sua segunda tentativa consecutiva, ao derrotar a excelente parceria croata de Mate Pavic e Nikola Mektic. Ram e Salisbury têm agora nove títulos na parceria formada desde 2019.

Também campeões invictos, os dois vão dividir o maior prêmio já pago a uma dupla, de US$ 930.300, mas permaneceram como números 3 e 4 do ranking. A liderança é do holandês Wesley Koolhof.

Decisão perfeita em Turim
Por José Nilton Dalcim
19 de novembro de 2022 às 19:04

Embora sejam possíveis distorções pelo sistema de grupos das primeiras rodadas, o ATP Finals é um torneio que costumeiramente premia os melhores da semana. Sim, porque um dia ruim não significa necessariamente a eliminação e o tenista, sempre de nível top 10, vislumbra tempo e recursos para recolocar a casa em ordem.

Isso nem foi o caso deste Finals. Novak Djokovic e Casper Ruud se mostraram superiores, ainda que Nole tenha corrido o risco de uma derrota para Daniil Medvedev e o norueguês caído diante de Rafael Nadal, ambos na rodada final em que já estavam folgadamente classificados.

O que enriquece a decisão do título deste domingo é a temporada que cada um fez. Djokovic limitou seu calendário pela questão da vacina, mas ainda assim venceu Roma e Wimbledon e foi vice em Paris, um currículo que já seria invejável para 95% do circuito. Se ainda por cima chegar ao sexto troféu no Finals em sua oitava decisão, ratificará que os 35 anos estão longe de ser empecilho e de que 2023 ainda lhe reserva novos sonhos e recordes.

Ruud por sua vez disputará a 72ª partida de um extenso calendário, que lhe deu três títulos de pequenos ATP 250 sobre o saibro, mas vices de gabarito, em Miami, Roland Garros e US Open. É inegável sua evolução fora da terra, principalmente o primeiro saque, e isso justifica sua presença na parte alta do ranking. Será que chegou sua grande hora?

Taylor Fritz exigiu empenho máximo de Djokovic, em sets definidos no tiebreak. Muito mais que isso, o norte-americano sacou para fechar o segundo set e no 30-30 errou uma paralela muito fácil. Ou seja, era para ter ido mais longe, embora eu tenha pouca dúvida sobre quem sairia vencedor. O jogo só teve dois break-points para cada lado, todos desperdiçados, e os desempates premiaram o tenista que sabe o instante certo de elevar o nível, e isso faz gigantesca diferença. Nole admitiu que o desgaste da maratona contra Medvedev deixou as pernas um pouco mais pesadas.

Na batalha de quem tiraria mais pontos no backhand adversário, Ruud foi aplicadíssimo na parte tática e sacou muito bem até fazer 6/2 e 5/2. Aí bateu certa ansiedade e Rublev não tinha mais nada a perder, mas a reação acabou sendo curta. O norueguês fechou o placar com apenas oito erros não forçados, três vezes menos do que Rublev, o que se justifica pelo estilo e objetivo de cada um em quadra.

Djokovic tentará seu terceiro Finals de forma invicta – e este agora vale US$ 4,74 milhões, o maior prêmio da história -, e o sexto no geral, o que o igualaria a Roger Federer. O sérvio no entanto não vence o torneio desde 2015, tendo perdido duas finais consecutivas. Mesmo sem os pontos de Wimbledon, terminará no top 5 da temporada. Caso contrário, seria o segundo e o eventual título o deixaria 180 pontos atrás de Carlos Alcaraz.

Ruud poderá ser o sexto diferente campeão desde 2016 – apenas Alexander Zverev repetiu um título – e curiosamente o quarto sem um troféu de Grand Slam nesse período. Em caso de vitória, irá superar Nadal no ranking e reassumir o segundo posto, apenas 500 pontos atrás de Alcaraz. O título para ele vale US$ 4,35 mi, que só não seria maior do que o obtido por Ashleigh Barty no Finals de 2019.

Mesmo com dois duelos sobre o saibro, Ruud ainda não tirou set nos três confrontos feitos contra Djokovic. Neste ano, na semi de Roma, o sérvio marcou 6/4 e 6/3. O jogo mais duro aconteceu em Turim do ano passado, placar de 7/6 e 6/2. A decisão será às 15h (de Brasília).

Mais invictos na final
A decisão de duplas em Turim envolverá duas parcerias que ainda não perderam nesta edição do Finals e por isso os campeões também terão direito a prêmio máximo e dividirão US$ 930 mil.

Rajeev Ram e Joe Salisbury tentam o título inédito pelo segundo ano seguido, enquanto Nikola Mektic busca o segundo troféu em três anos, desta vez ao lado de Mate Pavic.