Incredible Lorenzo
Por José Nilton Dalcim
30 de outubro de 2020 às 18:37

Tenista que habitualmente passa despercebido em qualquer sorteio de chave, o italiano Lorenzo Sonego se tornou a maior ‘zebra’ da temporada, ao impor um placar humilhante em cima do todo poderoso número 1 do mundo. Ao ganhar apenas três games do número 42 do ranking, Novak Djokovic sofreu sua pior derrota em nível ATP em 15 anos.

Os números da partida não são menos chocantes. Corajoso e determinado, usando sua combinação predileta de saque e forehand, Sonego disparou 26 winners contra apenas sete do sérvio. E ainda errou muito menos, com 12 diante de 25. Salvou todos os seis break-points que encarou e ganhou 80% dos pontos em que acertou seu forte primeiro serviço.

Alguns aspectos merecem destaque. Conseguiu ser muito consistente até mesmo com o backhand, seu ponto fraco, e utilizou recursos interessantes e inteligentes, como deixadinhas de forehand – um golpe que costuma disparar com força – e o saque sobre o corpo, que tirou muito o ângulo do adversário. O forehand esteve notável, principalmente no chamado ‘inside-in’, aquele golpe difícil em que se foge do backhand e se arrisca na paralela. Djokovic jogou melhor como devolvedor do que com o saque, pareceu acreditar que bastaria ter paciência para tirar a confiança do italiano e no final me pareceu quase desinteressado.

Em boletim, a ATP observou que Djokovic não perdia por placar tão elástico desde que foi superado por Marat Safin no Australian Open de 2005, por 6/0, 6/2 e 6/1. Mas então o sérvio era um adolescente saído do quali e encarou justamente aquele que seria o campeão, então me parece justo dizer que foi a mais dura derrota desde que entrou na elite do tênis. E não vamos esquecer que, há três semanas, Nole também acabou atropelado por Rafael Nadal em Paris.

Mas quem é esse Sonego, com cara de garoto? Ele na verdade tem 25 anos e se diz um especialista em saibro, ainda que seu único título de ATP tenha acontecido na grama de Antalya. Três semanas atrás, fez oitavas em Roland Garros. Jamais havia vencido um top 10 – seu maior resultado foi diante de Karen Khachanov, então 12º, na lentidão de Monte Carlo – e entrou na chave de Viena de última hora. Ele perdeu no quali para Aljaz Bedene e a desistência de Diego Schwartzman lhe deu nova chance. Djokovic aliás tinha 12-0 contra lucky-losers na carreira.

Enquanto Nole vê adiado o inevitável anúncio de que terminará a temporada como número 1, Sonego enfrentará o britânico Daniel Evans neste sábado. E convenhamos que qualquer coisa pode acontecer neste fim de semana, depois que Andrey Rublev atropelou Dominic Thiem no segundo set, logo após Kevin Anderson fazer uma bela exibição e barrar o nervosinho Daniil Medvedev.

E mais
– Rublev ganhou 17 de seus últimos 18 jogos em quatro torneios. Sacou muito contra Thiem: 11 aces e só perdeu quatro pontos quando usou o primeiro serviço.
– Antes de atingir quartas no Rio Open deste ano, Sonego vinha de 10 derrotas consecutivas. Já se garantiu como 35º.
– Aos 34 e apenas 111º do mundo, Anderson fez segunda cirurgia no joelho direito em fevereiro e joga com ranking protegido. Ele foi campeão de Viena, há dois anos.
– Roberto Bautista não se recuperou e desistiu de Paris, deixando a briga pelo Finals. Matteo Berrettini confirmou que joga, mas terá de ir ao menos à semi para ter chance.
– Zverev também jogará Paris. A saber como estará sua cabeça com a chegada do filho e com acusações de agressão de duas ex-namoradas.

Djokovic agora é também ‘rei dos tiebreaks’
Por José Nilton Dalcim
29 de outubro de 2020 às 19:20

A sequência de vitórias e títulos de Novak Djokovic na encurtada temporada é tão notável que poucos talvez tenham percebido que ele tem se mostrado também o ‘rei dos tiebreaks’. Com os dois que venceu em suas duas primeiras partidas em Viena, chega a 13 em 14 que precisou jogar.

Nesta temporada, apenas John Isner (15) e Felix Aliassime (14) venceram mais tiebreaks do que Djokovic, que empatou com os 13 de Thiem. Mas Nole atinge o aproveitamento de 92,85%, muito superior entre os jogadores que disputaram ao menos 10. O segundo colocado é Ugo Humbert, com 78,6%, e depois dele ninguém atingiu sequer 70%.

Djokovic aliás é o oitavo tenista que mais ganhou tiebreaks na carreira, com 260, uma lista liderada basicamente por grandes sacadores: Roger Federer (460), John Isner (442), Ivo Karlovic (398), Pete Sampras (328), Feliciano López (314), Andy Roddick (303) e Goran Ivanisevic (276).

No entanto, quando olhamos o critério de eficiência, o sérvio agora salta para o segundo lugar, com 65,16% de desempates vencidos (260 em 399), superando por pouco Arthur Ashe (65%) e bem cima de Andrés Gomez (63,2%) e de Sampras (62,6%). Apenas Federer está no momento a sua frente, com 65,34% (460 em 704). Portanto, outra façanha do suíço que Djoko está com chance de superar.

O número 1 de final de temporada, o que igualaria o total recorde de seis de Sampras, está 99% em suas mãos. Matematicamente, ele liquidará a fatura se ganhar Viena. Ao atingir as quartas, em dois jogos que não jogou tão bem e correu sério risco de perder os primeiros sets, obriga Rafael Nadal a ganhar Paris, Sófia e Finals.

O espanhol até agora diz que não tem intenção de disputar o ATP 250 búlgaro, algo mesmo sem sentido, mas a ATP opta pela cautela e não cravou ainda Djokovic como líder final de 2020. E talvez por isso nem mesmo Nole se arriscou até aqui a comemorar este novo feito histórico.

É muito provável que ele queira sacramentar com seu quinto troféu do ano, o que não está nada distante. Enfrentará nesta sexta-feira o fraco Lorenzo Sonego e deverá ter semi diante de Grigor Dimitrov ou Daniel Evans. O outro lado da chave está bem mais interessante: Dominic Thiem encara Andrey Rublev e Daniil Medvedev joga contra Kevin Anderson.

E mais
– Está difícil para Thiem chegar ao tão sonhado número 2. Distante 725 pontos de Nadal, ele não pode somar em Viena, pode se recuperar em Paris (fez 90 pontos contra 360 do espanhol em 2019), e ainda é o atual vice do Finals, onde somou 400 mais que Rafa.
– Rublev abre 719 pontos de Roberto Bautista e 354 de Berrettini. Sua chance de ir ao Finals é enorme.
– Dimitrov tirou Tsitsipas e garantiu o 18º posto, o mais alto desde que deixou o top 10 há exatos dois anos.
– Melo e Kubot continuam na luta para chegar ao Finals. Subiram para 10º, mas só o título em Viena os levará para o 7º.

Os números da renovação
Por José Nilton Dalcim
22 de outubro de 2020 às 21:58

É bem verdade que a nova geração ainda não conseguiu brilhar nos grandes torneios do calendário masculino como se esperava, bem ao contrário do que acontece entre as meninas, mas os números do ranking internacional dos dois sexos deixa claro que a renovação segue firme. E, vejam que curioso, o top 10 masculino é hoje mais jovem do que o feminino.

Antes de tudo, é preciso ressaltar que a evolução no preparo físico e especialmente o de recuperação muscular mudou aquilo que costumávamos chamar de “veteranos”. Há dez anos, virar ‘trintão’ era indício da reta final da carreira. Hoje, esse limite avançou pelo menos até os 32 e ainda se vê muito tenista em alto nível de competitividade aos 35.

É fato que o congelamento da defesa dos pontos em 2020 traz algumas distorções no ranking atual. No entanto, como a regra vale para todos, vale examinarmos os números.

E aí vemos que, dos atuais top 50, o feminino tem mais nomes com até 25 anos (21) do que o masculino (19), mas a diferença é tênue. Porém existem 11 nomes acima dos 32 anos na ATP contra meros 4 na WTA, sendo que há 3 homens e 2 mulheres com 35 anos ou mais. O grosso está na faixa média, entre 26 e 31 anos, o que podemos considerar hoje a fase de estabilidade dos tenistas: são 20 entre os homens (40%) e 25 entre as mulheres (50%).

Vamos a uma rápida análise das faixas de ranking:

Top 10
Metade dos homens têm menos de 25 anos, enquanto na WTA são quatro. Há um nome acima dos 35 em cada lista:
Masculino
– 5 abaixo dos 25 (Tsitsipas, Medvedev, Zverev, Rublev e Berrettini)
– 3 acima dos 32 (Djokovic, Nadal e Federer)
– 2 entre os 26-31
– 1 acima dos 35 (Federer)
Feminino
– 4 abaixo dos 25 (Barty, Osaka, Kenin e Andreescu)
– 1 acima dos 32 (Serena)
– 5 entre as 26-31
– 1 acima dos 35 (Serena)

Top 20
Se somarmos o top 10 com o top 20, aí vemos que a WTA está mais renovada, com 9 abaixo dos 25 anos contra 7 do masculino. Também não há no momento top 20 com mais de 32 anos no feminino
Masculino
– 2 abaixo dos 25 (Shapovalov e Khachanov)
– 4 acima dos 32 (Monfils, Bautista, Fognini e Wawrinka)
– 4 entre os 26-31
– 1 acima dos 35 (Wawrinka)
Feminino
– 5 abaixo dos 25 (Bencic, Sabalenka, Swiatek, Rybakyna e Vondrousova)
– Ninguém acima dos 32
– 5 entre as 26-31
– Ninguém acima dos 35 anos

Top 30
Entre os 21 e 30 primeiros do ranking, vê-se novamente uma forte renovação nos dois sexos, com 60% de cada lista. O feminino só tem um nome acima dos 32.
Masculino
– 6 abaixo dos 25 (Garin, Aliassime, Coric, Ruud, Di Minaur e Fritz)
– 1 acima dos 32 (Isner)
– 3 entre os 26-31
– 1 acima dos 35 (Isner)
Feminino
– 6 abaixo dos 25 (Mertens, Konta, Muchova, Yastrenska e Anisimova)
– 1 acima dos 32 (Kerber)
– 3 entre as 26-31
– Ninguém acima dos 35

Top 40
É uma faixa em que prevalecem os tenistas de idade mediana, entre 26 e 31 anos, com algum espaço para os veteranos.
Masculino
– 4 abaixo dos 25 (Hurkacz, Opelka, Humbert e Kecmanovic)
– 1 acima dos 32 (Cilic)
– 5 entre os 26-31
– Ninguém acima dos 35
Feminino
– 1 abaixo dos 25 (Vekic)
– 2 acima dos 32 (Kuznetnova e Strycova)
– 7 entre as 26-31
– 1 acima dos 35 (Kuznetnova)

Top 50
Metade dos jogadores entre 41 e 50 do ranking têm entre 26 e 31 anos.
Masculino
– 2 abaixo dos 25 (Sinner e Bublik)
– 3 acima dos 32 (Mannarino, Ramos e Querrey)
– 5 entre os 26-31
– Nenhum acima dos 35
Feminino
– 5 abaixo dos 25 (Ferro, Ostapenko, Kudermetova, Gauff e Podoroska)
– Nenhuma acima dos 32
– 5 dos 26-31
– Nenhuma acima dos 35

Resumo do atual top 50
A renovação na WTA é muito mais acentuada, ao vermos que apenas 8% têm acima dos 32 anos, quase três vezes menos do que na ATP. Ainda assim, são 40 tenistas entre os top 50 do tênis com menos de 25. Os novos tempos sempre chegam.
Masculino
– 19 abaixo dos 25 no top 50
– 11 acima dos 32
– 20 entre 26 e 31a
– 3 acima dos 35 anos
Feminino
– 21 abaixo dos 25 no top 50
– 4 acima dos 32
– 25 entre 26 e 31 anos
– 2 acima dos 35 anos

O quesito qualidade
O feminino dá um banho no masculino quando se fala no sucesso da nova geração nos Grand Slam. Enquanto a WTA viu nos últimos cinco anos Garbiñe Muguruza, Jelena Ostapenko, Sloane Stephens, Naomi Osaka, Ashleigh Barty, Bianca Andreescu, Sofia Kenin e Iga Swiatek levarem diferentes troféus, os então novatos da ATP chegaram tão somente a quatro finais (Milos Raonic, Dominic Thiem, Daniil Medvedev e Alexander Zverev).