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Bia se sente reconhecida e respeitada no circuito
27/10/2017 às 08h31

Bia teve a oportunidade de enfrentar grandes nomes do circuito nesta temporada, como a campeã de Roland Garros Jelena Ostapenko

Foto: Korea Open
por Mário Sérgio Cruz

São Paulo (SP) - Depois de encerrar a melhor temporada de sua carreira, Beatriz Haddad Maia colhe os frutos do bom ano de 2017 e faz uma avaliação sobre a mudança de ambiente que viveu nos últimos meses. A jogadora de 21 anos pôde vivenciar a elite do circuito feminino, disputando alguns dos principais torneios do mundo pela primeira vez na carreira.

Número 1 do Brasil, Bia ocupava o 173º lugar do ranking em janeiro e aparece atualmente na 61ª posição, chegando a ser a 58ª colocada em setembro. Nesse período, a canhota paulista entrou no top 100 em 15 de maio, pouco antes de furar o quali de Roland Garros, onde disputou seu primeiro Grand Slam. Depois, entrou diretamente nas chaves principais de Wimbledon e US Open, e avançou uma rodada na grama londrina. Além disso, Bia jogou sua primeira final de WTA em Seul e terminou o ano como uma das indicadas ao prêmio de Revelação da temporada feminina. 

Bia também teve a oportunidade de enfrentar grandes jogadoras, chegando a vencer as ex-top 5 Samantha Stosur e Sara Errani, além de jogar contra nomes do porte de Venus Williams, Garbiñe Muguruza, Simona Halep e Jelena Ostapenko e sabe o quanto essas experiências são importantes para sua formação. "Esses jogos são importantes para você ver em que nível que você está e o que você precisa melhorar", disse em entrevista ao TenisBrasil.

Elogiada por Venus e Halep após as partidas, Bia se sente mais respeitada e reconhecida no circuito e fora dele. "Você começa a aparecer e a ter mais oportunidades. Você começa a ser respeitada, as meninas passam a te cumprimentar e fica mais fácil para encontrar parceiras de duplas", explicou a paulistana. "Acho que tenho um reconhecimento maior aqui no Brasil também, e isso é muito importante".

Mesmo após uma grande temporada, a paulistana mantém a postura de não estabelecer metas de rankings ou resultados para o próximo ano e deseja apenas evoluir como tenista. "Se eu estiver fazendo o que eu tenho que fazer, e jogando da maneira que eu tenho que jogar, mesmo que eu perca os jogos, eu vou estar feliz e aprendendo. Acredito que resultados, ranking e patrocínios vão acontecer naturalmente".

Confira a entrevista com Beatriz Haddad Maia.

Este ano, você fez jogos contra Halep, Venus, Muguruza e Ostapenko. O que você mais aprendeu enfrentando essas grandes jogadoras?
Primeiro eu aprendi que jogar em quadras grandes é um pouquinho diferente, por causa da dimensão da quadra, da arquibancada, da torcida e do barulho. Cada uma tinha uma característica diferente, então eu vi que o tênis está composto de vários estilos. Tem meninas como a Halep, que é uma jogadora mais sólida, como a Muguruza que é sólida também, mas um pouco mais agressiva, e a Ostapenko que é mais agressiva ainda. Então em cada jogo eu fui aprendendo um pouco e vendo onde eu poderia melhorar e qual era o meu nível para terminar bem o ano. Acho que essas experiências foram muito importantes.

É legal na hora que você joga contra alguém desse tamanho para você sentir em que nível você está e onde você quer chegar?
Exatamente. Esses jogos são importantes para você ver em que nível que você está, o que você precisa melhorar, quais são os seus defeitos e onde você está cometendo erros. A intensidade que elas jogam é muito alta durante muito tempo e eu acho que tiro muita coisa positiva desses jogos.

O que você conseguiu sentir que você estava errando mais ou que poderia trabalhar mais?
A cabeça delas é difrente. Elas tem consistência para manter o alto nível durante mais tempo, cometem menos erros e a atitude é um pouco mais acima das outras. De resto, acho que todas jogam muito parecido.

Você passou boa parte do ano jogando torneios grandes. O quanto é diferente do que você estava acostumada?
Acho que os Grand Slam acabam mudando um pouquinho e têm um gostinho diferente. Eu já tinha jogado qualifying e ganhado convites para o Rio Open e Floripa. Já tinha sentido mais ou menos como que era. Mas este ano, em que você passa quali, ganha challenger e entra nesse nível, você começa a ver a rotina dessas meninas e o que você está fazendo. Você começa a ser respeitada, as meninas começam a te cumprimentar, começa a achar parceira de dupla. Acho que essas coisas também mudaram. Em relação à minha vida, minha rotina e minha equipe, nada muda.

Bia foi campeã de duplas do WTA de Bogotá ao lado da argentina Nadia Podoroska em abril. Este foi seu segundo título no saibro colombiano (Foto: Reprodução/Instagram)

Como é o seu dia no ambiente de um torneio grande?
Normalmente quando tem torneio eu faço minha meditação e gosto de tomar café da manhã junto com a minha equipe, para criar esse clima de família. Tanto que quando tenho a oportunidade, a gente prefere alugar um apartamento em vez de hotel. Aí faço a rotina de alongamentos e exercícios de prevenção e vou para a quadra.

Se naquele dia eu tiver jogo, eu jogo. Depois solto, faço massagem, converso de novo com a minha equipe sobre o que a gente fez de bom e o que pode melhorar para o dia seguinte. Já vejo o jogo da menina que eu vou enfrentar. No tempo livre, eu tento ver vídeo meu jogando. A WTA fornece um pendrive com o vídeo do jogo e eu já consigo ver os errinhos, onde eu melhorei, onde eu posso trabalhar.

Também tenho tentado estudar bastante para esfriar a cabeça, estou fazendo curso de Administração à distância na Estácio e gosto de assistir vídeos e entrevistas de pessoas que me inspiram. Mais ou menos a rotina é essa.

Você já se sente mais conhecida pelas demais jogadoras e respeitada dentro do circuito?
Com as meninas lá fora, acaba mudando um pouquinho. Você começa a aparecer. Hoje com a internet e os aplicativos, você começa a acompanhar muita gente. Tem menina que cresceu junto comigo e a gente sempre acaba jogando os mesmos torneios. Acho que essa questão da dupla é um fator que muda muito. É muito difícil encontrar uma parceira no circuito e eu consegui ter mais oportunidades.

Acho que tenho um reconhecimento maior aqui no Brasil também, de chegar nos clubes e em eventos de tênis e o pessoal me reconhecer. Foi a maior mudança. Senti que o pessoal tem acompanhado um pouquinho mais e seguido mais o tênis feminino. Acho que isso é importante.

Bia encerrou a temporada jogando em Luxemburgo, na última semana (Foto: Fern Konnen/Luxembourg Open)

Você estava acostumada a jogar até dezembro, tanto que até o ano passado foi assim. O quanto vai ser importante terminar o calendário na mesma época que as jogadoras top e fazer a pré-temporada também na mesma época para começar o ano junto com elas?
É bom que dá para planejar bem. Nessas duas semanas dá para ficar bem tranquila e organizar todas as coisas fora da quadra. Curtir a família, fazer eventos, entrevistas, consultar médicos e fazer tudo o que eu preciso organizar.

No dia 6 de novembro eu começo a pré-temporada, então a gente já organizou o planejamento físico com a equipe da Tennis Route, com o Alex (Matoso, preparador físico) e depois vou terminar a pré-temporada nos Estados Unidos, nos últimos dez ou quinze dias na IMG, para jogar alguns pontos com algumas meninas porque é importante ter essa oportunidade. E depois viajar para a Austrália. Esses três meses não vão ser parados. Vou ter bastante coisa e vou conseguir acrascentar todo dia alguma coisa para melhorar.

Pensando a longo prazo é muito mais benéfico que tentar buscar um pontinho a mais no fim do ano ou querer defender alguma coisa.
Realmente. Com o Germain (Gaich, treinador), a gente está com a meta de sempre pensar grande e na nossa evolução. Independente de 2018 ser excelente ou não tão bom em relação a resultados. A gente vai seguir fazendo o que já está sendo feito sem preocupação sem se preocupar com pontos e resultados. A gente tenta não pensar muito por esse lado, senão o Federer e o Nadal estariam ferrados (brinca). 

Não vai mudar eu tirar férias agora ou daqui um mês. Se precisasse, eu jogaria mais. Eu saio de férias com vontade de voltar para a quadra. Eu tô super tranquila. É claro que é gostoso quando está chegando o fim da temporada e é a última semana, mas eu via as meninas em Luxemburgo destruídas, dizendo "Ai, meu Deus! Quero ir pra casa!", mas eu estava tranquila. Até se precisasse jogar mais, eu jogaria.

Você não costuma estabelecer meta de ranking ou resultados e até já falou isso em outras entrevistas. Mas depois de um ano tão bom, que você furou o top 100, jogou Grand Slam e chegou na final de um WTA, você consegue pensar no que quer para o próximo ano, além é de claro de melhorar como jogadora?

Em primeiro de tudo eu quero manter o corpo saudável e poder jogar o ano inteiro. Vou tentar fazer um planejamento nos torneios para talvez não precisar ficar tanto tempo nas giras e conseguir voltar mais para me recuperar e fazer uma mini-pré-temporada antes dos torneios seguintes. Mas vou seguir na mesma toada, é zero resultado. Se eu estiver fazendo o que eu tenho que fazer, e jogando da maneira que eu tenho que jogar, mesmo que eu perca os jogos, eu vou estar feliz e aprendendo. Acredito que resultados, ranking e patrocínios vão acontecer naturalmente e não vou me preocupar com essas coisas.

A paulistana disputou seus três primeiros Grand Slam da carreira este ano. Ela furou o quali em Roland Garros e entrou diretamente na chave em Wimbledon (Foto: Paul Zimmer/ITF)

Outros brasileiros tiveram um ano muito bom e depois não conseguiram manter. Isso aconteceu recentemente com a Teliana e com o Feijão, por exemplo. Você tem conversado até com eles que são um pouco mais velhos até para ter umas dicas sobre como lidar com isso?

Com a Teliana eu tenho um pouco mais de contato por já ter jogado alguns torneios na mesma semana que ela. Ela é uma excelente atleta, com uma história de vida maravilhosa, e é um exemplo muito importante para o nosso país. O Feijão eu já não conheço tanto. Mas sei da dificuldade que é tênis, que ele é feito de semanas e às vezes você tem que pagar o preço. Tem semanas que você vai um pouco melhor e em outras a gente não vai tão bem.

Lidar com as derrotas e frustrações não é tão fácil, mas estou construindo uma base sólida e subi gradualmente este ano. Nada foi da noite para o dia. Meu jogo se adapta bem a vários pisos, então durante o ano todo eu posso jogar da maneira como eu quero e como eu posso. Isso é importante para entrar sólida para o ano que vem. 

Muitas jogadoras do circuito estão sendo assediadas ou ameaçadas, muitas vezes por apostadores. E agora que você é mais conhecida talvez possa vir a acontecer com você. Você tem conversado com jogadoras mais velhas e a WTA tem algum canal que vocês possam comunicar sobre isso?

A WTA tem um Tennis Integrity que cuida das atletas. Eles até têm um site e a gente tem o contato da pessoa para falar se você sentir que estão fazendo alguma ameaça ou que estão apostando nos torneios ou abusando de alguém. Comigo nunca tive problema nenhum.

As críticas, elogios e assédios podem surgir. Acho que pelas redes sociais é mais fácil, mas sempre tento me preservar. Posto bastante coisa, mas não fico lendo muita coisa e tento esquecer um pouco o telefone. Principalmente nos momentos muito bons, porque aí vem amigo que você nem sabia que você tinha e familiar que você nem sabia que você tinha. Nesses momentos é importante ter sua família e os amigos bem perto de você. Se algum dia acontecer alguma coisa, eu vou passa para a WTA e informar eles.

Algumas jogadoras optaram por expor essa situação nas próprias redes sociais. Aconteceu com a Madison Keys, por exemplo, e ela ganhou bastante apoio depois disso.
É muito louco isso. Tem gente que faz de maldade. Tem gente que não tem o que fazer e fica na internet. Ou às vezes a pessoa que fala teve algum problema no dia e desconta. Não dá para saber. Quando vem uma crítica construtiva eu acho legal, acho que a internet ajuda nesse ponto.

É muito fácil fazer uma página fake e ficar lá metendo o pau. Se essa pessoa que está lá fazendo isso pudesse contribuir, que fosse de uma maneira construtiva em vez de ficar xingando e reclamando. O que aquela pessoa está fazendo para melhorar a situação para ela mudar isso? Às vezes eu escuto pessoa que não tem o que fazer criticando o Bellucci, o Feijão ou o Thiago e eu até dou risada. Cada um tem a sua vida e se você acredita que quer ter sucesso em alguma coisa, não pode se ocupar com isso.

 

Em setembro, Bia realizou um período de treinos na IMG Academy, nos Estados Unidos. Ela irá repetir a prepração durante sua pré-temporada em dezembro (Foto: Reprodução/Instagram)

Você conseguiu fazer amizades no circuito ou treinar com grandes jogadoras ou você fica mais com as meninas da sua idade mesmo?
É difícil fazer amizade no circuito. As meninas são bem fechadas, bem diferente do masculino. Eu tenho uma personalidade bem aberta, falo bastante, gosto de cumprimentar, eu quebro esse gelo. Eu dou um sorriso, e se a pessoa quiser, ela dá um sorriso também, se não, ela guarda pra ela. Não tem problema.

Tem meninas que eu consigo me comunicar mais, como a Sara Sorribes Tormo, espanhola da minha idade que é uma amiga minha. A Cirstea é super simpática e todas gostam dela, a Halep também é super simpática, a Muguruza já é mais fechada. Depende muito do perfil da jogadora.

E você consegue viajar com o Germain em todas as semanas?
Esse ano eu viajei com ele em todas e o Paulão (Roberto Santos, fisioterapeuta), dependendo da semana, também foi. Mas o Germain foi em todas. Foi meu primeiro ano com ele.

E nesses torneios grandes você tem o técnico na quadra. O quanto isso ajuda e você consegue assimilar?
Eu sou a favor dessa regra. No fundo, quem resolve os problemas é o jogador dentro da quadra, mas o treinador acaba trabalhando o ano inteiro e fica atado na hora do jogo. É legal ele também expor o que ele está pensando. Tem jogo que eu estou pensando em alguma coisa e está acontecendo outra. Tem jogo que eu estou muito nervosa e chamo para a gente dar uma risada, para descontrair um pouco. Tem jogo que eu tô sentindo que a menina mudou o padrão e ele diz 'Bia, fica ligada nisso aqui'. Nos momentos bons e ruins é bom ter uma pessoa do seu lado.

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