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Casal de jogadoras fala sobre desafios e preconceito
28/02/2018 às 15h50

Tara Moore e Conny Perrin assumiram o relacionamento publicamente e vão se casar

Foto: Eric Visintainer/Divulgação
por Mário Sérgio Cruz

São Paulo (SP) - São poucos os atletas profissionais que se sentem confortáveis para assumir publicamente a homossexualidade. Mais raros ainda são os casos de esportistas que mantém um relacionamento afetivo e falem abertamente sobre o assunto.

O tênis tem um desses exemplos com a suíça Conny Perrin, jogadora de 27 anos e 182ª do ranking, e a britânica Tara Moore, hoje 450ª colocada e que já esteve na 145ª posição há menos de um ano. O casal de jogadoras está no Brasil e disputam as chaves de simples e duplas do Torneio Internacional Feminino, evento de nível ITF que acontece no saibro do Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo.

As duas se conhecem há oito anos e iniciaram o relacionamento em 2011. Já no ano passado, deram mais um importante passo ao iniciar o noivado em cerimônia diante do Lago di Garda, na cidade italiana de Sirmione. Moore nasceu em Hong Kong, mas defende a bandeira britânica e chegou a treinar na academia de Nick Bollettieri, na Flórida. Já a suíça Perrin entende um pouco da língua portuguesa, já que é filha de uma brasileira, de nome Maria José da Silva, natural do Recife.

Moore e Perrin costumam dar poucas entrevistas, por conta de experiências negativas que já tiveram com perguntas invasivas e de teor pessoal, mas falaram ao TenisBrasil sobre temas pertinentes como a homofobia e o preconceito no circuito, o desafio de manter um relacionamento amoroso com uma parceira de treino e competições e as dificuldades financeiras de atletas que disputam torneios menores.

Confira a entrevista com Tara Moore e Conny Perrin.

Quando vocês começaram no tênis e há quanto tempo vocês se conhecem do circuito?
Moore: Nós começamos a jogar há bastante tempo, eu tinha sete anos e ela também com sete ou oito e nós nos conhecemos já há oito anos. É bastante tempo.

Vocês conseguem planejar um calendário disputando os mesmos torneios? Conny tem maior predileção ao saibro e está melhor colocada no momento.
Perrin: Eu não tenho uma preferência de piso. Antes eu gostava mais do saibro, mas acho que hoje eu também me sinto bem nas quadras duras. Então estou mais aberta quanto a isso e posso jogar onde for melhor para mim.

Moore: Acho que nós fazemos o que for melhor para nós pensando no tênis. Se nós pudermos jogar os mesmos torneios é um bônus, mas se não pudermos tudo bem. No momento esse é o nosso trabalho e fazendo tudo pensando no tênis.

E vocês dividem o mesmo técnico?
Moore: No momento não.

Perrin: Eu não estou acostumada a viajar com um treinador e estou sem técnico há nove meses, porque é muito caro. Eu não acho que teho condições financeiras para ter um técnico sempre comigo, mas hoje eu tenho uma pessoa que me ajuda e por enquanto está funcionando. Se eu sentir que eu preciso de alguém para ajudar com meu tênis, terei que encontrar a pessoa certa.

Conny está com o melhor ranking da carreira e divulgou recentemente no Twitter que está com dificuldades financeiras e está arrecando dinheiro para tentar chegar ao top 100. Como está indo a campanha?
Perrin: Eu sempre viajei sozinha e nunca recebi muitas dicas sobre o meu tênis. Então é mais para eu poder ter a oportunidade de viajar mais vezes com a pessoa em que eu confio e que pode me ajudar. Por enquanto, eu consigo jogar viajando sozinha, mas se eu quiser subir de nível eu vou precisar de um pouco mais de apoio e ficaria feliz se tivesse.

No ano passado, vocês jogaram uma contra a outra pela primeira vez. Como foi essa experiência?
Moore: No fim das contas, é apenas um jogo. É a mesma sensação de jogar contra uma das minhas amigas. Nós jogamos aquela partida e depois que ela termina, a disputa acaba. É apenas um jogo. Não tem tanto problema.

Perrin: Nós vemos o tênis como um jogo. Quando você entra em quadra, é claro que você quer aproveitar o momento e também quer ser competitiva...

Moore: No fim das contas, é apenas um jogo e existem coisas mais importantes do que uma partida para ficar brava ou triste. Toda semana as pessoas vencem e perdem, é assim que as coisas são. Você apenas pensar naquilo que é mais importante.

E quando vocês jogam juntas, é possível dissociar do relacionamento de vocês e pensar apenas como parceiras de duplas?
Moore: Acho que nós duas somos profissionais. É claro que nós gostamos dessa experiência, nós queremos vencer e é bom jogar juntas porque cada uma se importa com o tênis da outra, mas é um trabalho. Quando entramos em quadra, temos um trabalho a fazer.

Perrin: Durante as partidas nós sempre tentamos pensar como um trabalho. Há uma diferença entre um relacionamento e os negócios. Dentro de quadra são negócios.

Existe hoje ainda muita homofobia no circuito?
Moore: Não comigo. Eu sempre fui muito aberta quanto a isso e acho que quanto mais aberta você é, mais pessoas te fazem perguntas e você tem que responder a mais perguntas. Mas todas as meninas do circuito são muito legais. Nosso relacionamento não as afeta de maneira alguma então acho que isso não é um problema.

E quanto aos fãs e nas redes sociais? Vocês acabam recebendo muitas mensagens preconceituosas ou as mais mensagens positivas são maioria?
Perrin: Às vezes você perde um jogo e recebe mensagens abusivas, e às vezes você vence e também recebe ofensas. Mas ao mesmo tempo a gente sempre recebe mensagens positivas também. Acho que é a mesma situação de muitas outras jogadoras.

Moore: É 50 a 50. Sempre tem pessoas legais e pessoas não muito legais.

Existe algum país onde vocês não sintam confortáveis para viajar e jogar? No Oriente Médio, por exemplo?
Moore: Vou ser honesta com você. Na maioria das vezes que nós viajamos é para jogar tênis, então não acho que isso afeta aguma coisa. Nós vamos para lá e somos profissionais. Assim como as jogadoras viajam com os namorados para os torneios, mas não passam tanto tempo juntos e expostos em público. É a mesma coisa. Não faz muita diferença.

Martina [Navratilova] e Billie Jean [King] abriram as portas no passado ao falar publicamente sobre a sexualidade delas, assim como a Mauresmo o fez na década passada. Vocês sentem que esse legado faz com que as jogadoras de sua geração se sintam mais confortáveis para falar sobre elas mesmas?
Moore: Acho que nossa geração, mesmo fora do tênis, é muito mais aberta. Em todo lugar, conforme o tempo passa, isso está se tornando normal. São as nossas vidas e não têm a ver com mais ninguém. Nós não estamos ofendendo a ninguém e as opiniões dos outros não me ofendem.

Perrin: Eu penso parecido com ela.

E por que vocês acham que não há nenhum jogador assumidamente gay no circuito masculino?
Moore: Nunca pensei tanto nisso, para ser honesta, mas é uma decisão deles. Os tenistas são pessoas muito reservadas. Acho que nós somos mais abertas que outras pessoas, mas isso depende apenas de nós.

Perrin: Eu me sinto mais confortável para falar. Acho que você pode ser aberta, mas não tão aberta. Quero apenas ser eu mesma. Se eu for para um torneio e as pessoas virem que nós estamos juntas, tudo bem, mas eu não quero falar sobre isso o tempo todo. Ao mesmo tempo eu não posso dizer: 'Não, nós não somos'. Algumas pessoas aceitam mais do que outras, mas isso depende da personalidade.

Moore: Acho que as pessoas, sejam elas homens ou mulheres, devem ser elas mesmas. É por isso que eu tento ser o mais aberta possível sobre isso. É porque isso vai fazer com que mais pessoas sejam elas mesmas e isso seja mais fácil para elas. Essa é a coisa mais importante.

Quais são seus planos para depois de terminar a carreira no tênis?
Moore: No momento eu penso em um dia de cada vez, então eu não sei nem o que vou fazer amanhã. (risos) Eu apenas tento aproveitar o tênis pelo máximo de tempo que eu puder jogar.

Perrin: Eu gosto de fitness e nutrição. Se eu puder ajudar alguém dessa forma eu ficaria feliz. Com o tênis, poderia ajudar de maneira bem específica, seja uma outra jogadora ou alguém que tenha determinado objetivo porque eu conheço o circuito. Seria interessante. Mas eu não me vejo como uma treinadora de tempo integral, que passa sete horas em quadra por dia. Gosto de fazer coisas diferentes.

Eu vi que o noivado de vocês foi no Lago di Garda, na Itália. De quem foi a ideia de fazer o pedido de casamento lá?
Moore: Nós estávamos de folga lá. E foi o lugar certo, o momento certo e nós nos sentimos prontas. Ambas estamos numa idade em que as pessoas estão se estabilizando. E foi assim que aconteceu.

E teve alguma preparação especial ou uma surpresa?
Moore: Não, nós apenas fomos curtir férias lá. Não era nem férias, foram apenas dois ou três dias, que tínhamos livres.

Perrin: Mas foi muito bom porque foi em uma ilha, em um barco. É uma região muito bonita na Itália. É como Veneza, mas um pouco menor e mais próximo da Suíça. Muitas pessoas da Suíça vão para lá.

Uma última pergunta, um pouco mais leve: Quando Roger [Federer] e Andy [Murray] se enfrentam, para quem vocês torcem?
Moore: Acho que os dois são incríveis. Andy é um cara muito legal e, obviamente, Roger é uma lenda. Sendo honesta com você, quando assistimos a um jogo como esse, assistimos mais pelo tênis e menos para torcer para alguém ganhar. Vê-los jogar é apenas incrível. Assistimos simplesmente por isso.

Perrin: Eu penso parecido. É claro que sou da Suíça, mas quando eles jogam são partidas muito importantes na maioria das vezes. Eles jogaram a final de Wimbledon e das Olimpíadas e quando você os assiste, você está assistindo à história do tênis. Eu apenas sinto isso, e incrível.

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