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O esporte brasileiro perde a maior de todas
08/06/2018 às 23h35

Maria Esther e a réplica de seus troféus

Foto: Luiz Doro
José Nilton Dalcim

A primeira vez que vi Maria Esther Bueno jogar foi totalmente por acaso. Batia bola com um amigo no saibro descoberto do Pacaembu, quase no finzinho do horário de locação, e um casal se aproximou da quadra, sentou-se na arquibancada e esperou liberarmos a quadra. Ao sair, que susto e que vergonha. Ter jogado tênis diante dela. Eu nem escrevia sobre tênis, mas sabia muito bem quem era Maria Esther. Eu e meu amigo ficamos ali boquiabertos, a ver o aquecimento, a fluidez dos golpes, a leveza das mãos.

Tive muitos encontros com Maria Esther ao longo de minha carreira. Alguns oficiais, outros nem tanto. Maria Esther não gostava de jornalistas, mas não era uma implicância tola. Sentia verdadeiro pavor de ser entrevistada por alguém que desconhecesse seus feitos, e na década de 1980 se tornava muito normal que os repórteres soubessem muito pouco sobre tênis. O acesso à informação não era algo fácil e exigia tempo e paciência. Sempre gostei de pesquisar, tinha um considerável arquivo e sabia tudo que era possível sobre a carreira de Miss Bueno.

Nosso relacionamento portanto ficou bem mais natural, porque eu conseguia falar de tênis com ela num nível bem aceitável. Ganhei sua confiança. Consegui uma reportagem de capa para a extinta Match Point com uma bela foto dos irmãos, sugeri uma edição comemorativa a seu aniversário de 50 anos na revista Tênis News. Maria Esther trouxe suas réplicas dos troféus de Wimbledon, uma preciosidade. Fiquei emocionado e guardo essa imagem até hoje.

Ainda assim, era preciso caminhar sobre ovos. Conhecia também os limites, e isso incluía necessariamente não fazer perguntas sobre sua vida pessoal. Analisar tenistas brasileiras de novas gerações? Nem pensar. Dávamos muita risada com isso. Ela ficava maluca quando alguém ousava compará-la com uma novata em ascensão.

Esse distanciamento da imprensa e seus compromissos no Exterior - durante muito tempo fez clínicas para a Federação Internacional e foi comentarista de jogos para a TV inglesa - fizeram com que a fraca memória do esporte brasileiro a deixasse num segundo plano. Ninguém levava muito em consideração o desafio notável que ela se impôs ao tentar disputar o circuito internacional de um esporte de elite sem ter recursos para isso, vinda de um país escasso de tradição e que ignorava modalidades femininas. Nunca havia sequer pisado numa quadra de grama quando chegou à Europa em 1958, roupas remendadas, dinheiro emprestado e um par de raquetes. Só mesmo seu talento excepcional e a determinação ferrenha explicam o sucesso que se seguiria.

É bem verdade que Estherzinha também contribuiu para o esquecimento. Afastou-se demais do Brasil, temerosa de que qualquer ação de dirigentes e promotores tivessem como único objetivo explorar sua imagem. Seguia os padrões internacionais e cobrava cachê para entrevistas e até mesmo para receber homenagens, algo que o incipiense mercado esportivo brasileiro estava completamente desacostumado.

Gustavo Kuerten recuperou a rica história de Maria Esther. Já na era das transmissões ao vivo e nos primeiros passos da Internet, suas façanhas em Roland Garros fizeram todo mundo relembrar de que havia uma heroína com um currículo ainda mais impressionante que o dele. Aquela Estherzinha que eu vi ser 'desconvidada' para uma homenagem em pleno clube Harmonia por não se dar com o promotor renascia para a mídia, para o mercado e para o público. Foram anos em que eu vi Maria Esther realmente feliz.

Meu último encontro pessoal com ela foi no Rio Open do ano passado. Me surpreendi quando carinhosamente veio me dizer que estava à disposição para qualquer coisa que eu precisasse. Nos falamos brevemente alguns meses atrás quando liguei para tentar fechar entrevista para uma revista. Bom cachê. Infelizmente, havia um choque de patrocinadores e ela, sempre ética, não pôde aceitar. Soube de sua doença há pouco tempo. Não tive a dimensão da gravidade.

Maria Esther não foi apenas a maior tenista brasileira de todos os tempos. Perdemos hoje nossa maior atleta da história. Tomara que haja quadras e raquetes no Paraíso.

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