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Zormann abre coração e revela pausa por depressão
02/10/2018 às 05h00

Zormann não jogará mais na atual temporada

Foto: João Pires/Fotojump
Felipe Priante

Campinas (SP) - Campeão juvenil de Wimbledon nas duplas em 2014, ao lado do gaúcho Orlando, o paulista Marcelo Zormann já encarou vários rivais diferentes dentro de quadra nestes seus 22 anos de vida, mas foi justamente fora dela que ele encontrou seu maior adversário: ele mesmo. Atual 300 do mundo nas duplas e 857 em simples, o paulista de Lins foi diagnosticado com depressão e resolveu fazer uma pausa na carreira pelo menos até o fim de 2018.

Em entrevista durante a disputa do challenger de Campinas, onde Zormann é agora um espectador, ele abriu seu coração e falou do que é o momento mais difícil que encarou pela frente não apenas na carreira, mas na vida. O simpático tenista mostrou toda sua grandeza justamente num momento que muitos podem julgar como de fraqueza, mas não hesitou em assumir seus problemas e principalmente em buscar soluções para eles.

De peito aberto, o paulista não teve medo de expor a situação delicada pela qual está passando e colocou para fora um pouco de suas angústias em relação a uma doença solitária, que mesmo os mais próximos pouco podem fazer que não apenas dar apoio e tentar entender a pessoa em questão. E foi em parte para ajudar a entender melhor as minúcias e nuances do caso que essa longa conversa foi escrita:

Fale um pouco sobre essa depressão e como você resolveu parar de jogar?

Estou levando bem, acho que foi a melhor decisão que eu tomei na vida. Já vinha há um tempo não me sentindo bem em relação ao tênis, em relação à rotina de treinos e até um pouco de viagens e tudo mais. Eu vinha me sentindo estranho há um tempo. Foi passando e foi piorando como eu vinha me sentindo. A penúltima semana em que eu estava na Europa foi a pior de todas. Joguei por obrigação nas últimas duas semanas, tanto que perdi jogos para dois caras muito abaixo do meu nível. Quando voltei, treinei, fiquei um tempo parado e me senti um pouco melhor. Treinei de novo, ia para a Argentina, mas decidi não ir de última hora. Já tinha comprado a passagem de ida. Tirei mais meia semana de descanso até que chegou terça-feira passada e eu vi que não dava mais,

Senti que da maneira que estava jogando e treinando que não iria dar certo. Eu não tinha vontade de fazer nada. Não queria sair de casa. Foi então que decidi me abrir, falar o que eu achava que tinha. A primeira pessoa com que falei foi minha namorada. Demorou para aceitar que eu realmente tinha isso e também foi um pouco de vergonha. Eu também não queria aceitar que isso está acontecendo comigo. ‘É só um momento, eu vou conseguir encarar e passar por cima disso’. Eu conversei com o Edvaldo (Oliveira, seu técnico em São José do Rio Preto) na terça-feira à tarde, e ele falou: ‘Olha, eu falei outro dia que achei que você estava com depressão’. Na quarta, eu fui na psicóloga que tem parceria com o centro de treinamento, aí a gente conversou. Eu me abri bastante com ela, falei coisas que não tive coragem de falar nem para minha namorada nem para o meu pai. Ela fez um teste comigo e me falou que estou com depressão em nível moderado e também com ansiedade: ’a melhor coisa que você fez foi ter parado de jogar, dar um tempo’, disse ela. Hoje eu não estou bem o suficiente para tomar esse tipo de decisão (parar de jogar), não quero tomar uma decisão precipitada, passar um ano e eu me arrepender.

A sensação mais forte é de tristeza, vontade de chorar? Ou raiva, querer quebrar coisa? O que foi esse momento?

Foi de tristeza. De querer se trancar num quarto e querer ficar lá pra sempre, sabe? Ficar num canto sem ninguém mexer comigo. Não tive nenhum momento assim (violento). Não cheguei a quebrar raquete nem nada. Foi um momento de depressão mesmo, de me sentir muito mal, de estar muito para baixo. Foi bem isso.

Você tem uma ideia do que iniciou isso tudo? O tênis tem a ver com isso?

Com certeza, eu não ter alcançado certos objetivos e metas que eu tinha no tênis contribuiu para isso. É muito difícil falar ‘ah, não foi’. Mas, com certeza, não é o principal fator, sabe? Não é uma coisa recente. Ano passado, eu já tive alguns momentos assim, de não me sentir bem, de várias vezes acordar para ir treinar e pensar em inventar alguma coisa para não ir treinar, mas porque eu sabia que não estava bem, sabe? Eu só queria ficar em casa, na minha casa. Não queria fazer mais nada. E também por outras coisas. Às vezes, eu combinava de ir para a casa de um amigo. Combinava alguma coisa na segunda para fazer no fim de semana, aí chegava o fim de semana, e eu não queria sair de casa. Acho que isso foi agravando. Não é só tênis. É uma série de coisas, um pouco de tudo.

Depois de falar com a psicóloga, você está se sentindo mais aliviado? Como está esse momento agora?

Estou bem mais aliviado, mais tranquilo porque acho que, por exemplo, a rotina de treinos estava sendo uma obrigação. Mas ainda é muito difícil porque… Eu falo “ainda” porque há muito tempo eu sei que tenho essas sensações e não sei lidar ainda com isso. Agora [durante a entrevista] estou muito bem, mas em cinco minutos eu posso me sentir muito mal. Eu acho muito estranho isso porque não é da minha pessoa, sabe? E às vezes acontece. É muito esquisito. Eu não consigo entender. Tem dia que eu acordo muito mal. Eu acabei de acordar, sabe? E como no tênis eu estou acostumado a estar sempre resolvendo problema - é uma característica do tenista porque no jogo você tem muitos problemas a resolver - eu também, fora da quadra, se tem alguma sensação, eu faço isso e melhoro, sabe? São coisas que eu ainda não sei lidar. Tenho que achar alguma forma de, tipo, combater isso. Mas estou fazendo o tratamento, tomando remédio também, e acho que isso, a longo prazo, daqui a alguns dias, eu acabo melhorando. Também tenho que encontrar formas de sair dessas sensações.

O esporte de alto rendimento, de forma geral, é muito exigente. Por você ter isso como profissão, é ainda mais difícil encarar uma situação como essa?

Acho que sim. Estou acostumado a ter um problema e resolver sozinho, mas também me limita demais, sabe? Eu acho que é uma coisa que me limitou demais. Isso já vem desde o começo do ano passado. Atrapalhou demais porque, ainda mais no tênis, onde você é sozinho, existe muito mais responsabilidades e pressão para você lidar. É muito difícil também. Às vezes a gente vê um cara dentro de quadra, mas a pressão é muito difícil de lidar. O jogador faz parecer fácil, mas é muito difícil.

Tem um pouco da questão da autoaceitação, que você reconhece ter um problema difícil de resolver.

Acho que isso também vem me atrapalhando. Na realidade, é um problema mais comum do que parece. Tanto é que foi o que a psicóloga me falou. “Olha, eu entendo isso, mas você não precisa se desesperar porque hoje em dia acontece com 70% da população.” Fora as pessoas que têm e não aceitam, não cuidam disso. Eu falei para ela que sinto isso desde o ano passado, e ela falou que tem paciente que chega lá há cinco, dez anos se sentindo assim, e a pessoa não sabe [que tem depressão]. Depois, eu fiquei mais tranquilo. Eu acho muito estranho que é um negócio que eu ainda não sei lidar, sabe? Mas fiquei mais tranquilo por isso Por ser uma coisa, teoricamente, comum.

Parar de jogar e estar aqui vendo um torneio te faz bem ou é indiferente?

Me faz bem sim, porque tem meus amigos e pessoas que eu gosto muito. A maioria das pessoas é legal e tenho boas relações com quase todo mundo. Então me faz bem sim. Não é uma coisa que eu viria aqui e me sentiria muito mal por não estar jogando, porque atualmente o que eu sinto falta é algo como ontem, quando estava vendo o Orlandinho batendo bola para aquecer. Isso eu sinto falta, mas a falta da competição não existe no momento. Sei da pressão e responsabilidade de estar controlando o nervosismo e a pressão o tempo inteiro. Sei que isso é muito difícil e é algo que não tenho muito controle agora. As lembranças disso nos últimos meses são muito ruins, mas o ambiente do torneio eu gosto bastante.

Como que foi a relação das pessoas que te cercam? Como seus amigos e sua família receberam a notícia desse seu momento?

Todo mundo me apoiou muito e entendeu a razão por eu estar parando. E muita gente próxima, como minha avó, minha namorada e alguns amigos disseram que estavam vendo que eu não estava bem, que me sentiam um pouco apagado, meio para baixo. Acho que eu demorei mesmo para me abrir e falar sobre isso. Para muita gente é meio que um choque quando eu falei que não ia jogar mais tênis nesse ano, mas todo mundo ao meu redor me apoiou e isso é muito importante. Tem gente que pode ver como uma fraqueza, mas é um negócio muito sério. Eu tenho tudo: saúde, apoio da família, oportunidades de poder jogar. Estava na Europa para jogar e me questionava como eu poderia estar me sentindo mal.

Foi legal você ter a coragem de falar. O primeiro passo talvez seja o mais difícil.

O mais difícil foi mesmo eu aceitar comigo mesmo. Logo que eu falei com o Airton ele me disse que tínhamos que pensar no que falar. Aí fui sincero, disse que é uma coisa comum e que muita gente tem tabu em aceitar, como eu tive, e por isso resolvi falar abertamente. No começo quando me perguntavam porque não estava jogando dizia que era porque estava machucado, é um pouco complicado sair falando assim para todo mundo. Mas agora estou dando entrevista e falando disso e não tenho problema. Depressão é uma coisa que muita gente pode ter e não entende ou não aceita e é algo até que comum. O quanto antes você procurar ajuda é melhor, talvez se eu tivesse feito isso antes estaria em um grau menor, mas é acontece e faz parte. Não tem problema nenhum você procurar um psicólogo e conversar, é muito bom, um alívio muito grande.

Pensando em tênis, qual a programação até o fim do ano?

Minha prioridade é cuidar de mim agora, mas quero até o fim deste ano definir o que vou fazer no começo do próximo, mas se precisar de mais tempo não quero cometer o erro de voltar antecipadamente e talvez ter uma recaída. O tênis é uma coisa que dediquei minha vida inteira e não quero tomar uma decisão errada em relação a isso. Se eu tiver que parar ou dar aula, eu estou tranquilo.

Como está sendo seu dia a dia sem treino?

Eu não tenho feito muita coisa mesmo, até porque faz pouco tempo. Tenho ficado mais em casa e agora estou passando mais tempo no clube, mas o que tenho feito é estudar para terminar o ensino médio, que não tinha terminado ainda. Tenho jogado bastante Counter-Strike, muito na questão de volume, já que na qualidade estou tentando melhorar ainda. Vi alguns filmes e voltei a ver umas séries, já que estou com mais tempo, mas às vezes estou vendo uma série, pauso e fico pensando muita coisa. É um pouco estranho, ainda estou meio sem concentração.

Sobre a volta aos estudos: tem alguma matéria que você tenha mais dificuldade ou alguma que goste mais?

Gosto muito mais da parte de física, química e matemática, principalmente de álgebra e geometria. História e geografia é neutro, mas a área de língua portuguesa, literatura e artes eu não gosto e até já peguei no começo para me livrar logo disso porque é muito chato. Eu parei o ensino médio no meio do primeiro ano, quando tinha 14 anos, mas não aconselho a ninguém. Foi uma decisão minha e meus pais pegaram no pé. Sei que errei e foi um tempo meio que eu perdi. Tanto que sempre falei para os mais novos continuar estudando.

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