
São Paulo (SP) - Pouco mais de um ano depois de disputar a última partida de sua carreira profissional, Juan Martin del Potro voltou a bater bola numa quadra de tênis, nesta quarta-feira em São Paulo. Embaixador da edição deste ano do Roland Garros Junior Series, Delpo participou de um treino e deu conselhos a jovens jogadores brasileiros. Mas aos 34 anos, e depois de uma trajetória de muitas lesões, o foco do argentino é ter uma vida normal sem sentir dor.
Ex-número 3 do mundo e campeão do US Open em 2009, Del Potro passou quatro cirurgias nos punhos, uma no direito em 2010 e mais três nos punho esquerdo entre 2014 e 2016. E depois de finalmente solucionar o problema e voltar a jogar em alto nível, o argentino sofreu uma grave lesão no joelho direito, que o obrigou a passar por mais quatro cirurgias até pendurar as raquetes em uma emocionante despedida no ATP de Buenos Aires do ano passado.
Durante todos esses afastamentos do circuito, Del Potro precisou cuidar também da saúde mental. O objetivo era evitar sentimentos negativos e o que como ele próprio já havia chamado: 'pensamentos horríveis'. Mesmo depois de parar de competir e viajar pelo circuito, ele afirma que o trabalho é contínuo para que ele possa desfrutar do que construiu em toda a sua carreira.

"É um processo. É um caminho. Tem que pensar dia a dia. A própria vida é assim. A gente sempre deseja o melhor, mas às vezes acontecem coisas que não estão programadas. No meu caso, eu era número 3 do mundo, tive uma lesão e praticamente não pude jogar mais tênis. Não foi uma decisão pessoal, foi algo de saúde e uma lesão. Agora estou trabalhando nesse processo para viver a vida cotidiana um pouco mais normal e não sofrer tanta dor, mas não é fácil. É um trabalho tanto físico quanto psicológico", disse Del Potro a TenisBrasil, durante a coletiva de imprensa nesta quarta-feira, na Sociedade Harmonia de Tênis.
"Creio que não há mal que dure para sempre. A cada dia, é sempre um desafio saber como saltar as pedras que aparecem no caminho. Era assim também no esporte. Quando eu estava lesionado, eu sempre sonhava em voltar a ser top 10 e a ganhar torneios grandes, e trabalhava para isso. E por sorte, depois de cada lesão, eu consegui", acrescentou o argentino, que conquistou 22 títulos no circuito da ATP, fez parte da equipe campeã da Copa Davis em 2016 e duas vezes medalhista olímpico.
"Hoje, depois de cada lesão que eu tive nos últimos anos, meu objetivo é ter uma vida cotidiana, sem dor, e desfrutar de tudo o que construí na minha carreira. Este evento é um exemplo disso, fui convidado por Roland Garros para ser o embaixador e aceitei na hora. Estou aqui para compartilhar as partes boas e ruins da vida de jogador", complementou o ex-número 3 do mundo, que bateu bola com jovens tenistas como Olívia Carneiro, Pietra Rivoli e Pedro Chabalgoity. Ele também teve a companhia de Fernando Meligeni para orientação de jovens talentos, além de ter participado de uma clínica com alunos do projeto social do Instituto Patrícia Medrado.

'Só faltou ser o número 1', diz o argentino
Questionado sobre o que ele acha que ficou faltando para sua carreira tão vitoriosa, Del Potro afirma que gostaria de ter alcançado o número 1, mas o fato de ser contemporâneo de lendas do esporte como Rafael Nadal, Novak Djokovic e Roger Federer o impediram de alcançar esse feito.
"Acho que a única coisa que me faltou foi ser o número 1 do mundo. Sempre foi um sonho e trabalhei muito para tentar ser o melhor, mas hoje estou muito orgulhoso da minha carreira. E só não consegui ser número 1, porque ali sempre estavam Nadal, Federer ou Djokovic. Foram eles que não me deixaram realizar esse sonho, mas é muito lindo saber também com quem eu estava lutando pela liderança".
Lembranças de torneios no Brasil e recado aos jovens

Del Potro se recorda de torneios juvenis que disputou no Brasil, como o Banana Bowl de 2003, quando foi vice-campeão da categoria de 16 anos, superado por Raony Carvalho, e também deixou um recado para os jovens jogadores. "Eu me recordo muito de quando tinha 14, 15 ou 16 anos. O Banana Bowl tinha um peso muito grande para os sul-americanos, porque para nós era muito difícil chegar um Grand Slam juvenil. Não haviam essas oportunidades de hoje".
"Minha primeira mensagem é que desfrutem esse momento. É um privilégio. Eu não tive essa oportunidade, tive que fazer um caminho muito longo. Não é fácil aprender a lidar com a pressão tão cedo. Sei que existe cobrança dos pais e dos patrocinadores, mas é possível transformar a pressão em algo positivo. Vocês vão crescer como pessoas e como jogadores. O que eles treinam é exatamente igual a um top 10. Eles só têm pressão porque são bons, ela não existe para os que não chegaram a esse nível. Eu sabia que se alguém estava prestando atenção em mim, era porque acompanhava e acreditava na minha carreira".