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Rafael Gonçalves, de menino pobre a sucesso nos EUA
29/06/2019 às 09h27

Rafael Gonçalves e a baiana Patrícia Medrado, ex-top 50 do mundo.

Foto: Divulgação

São Paulo (SP) – No espaço de 12 anos, a história de um jovem de 13 anos virou inspiração para centenas de jovens que frequentam os projetos sociais do Instituto Patrícia Medrado, a brasileira que figurou no top 50 do tênis mundial.

Foi em 2007 que Rafael Gonçalves, então com 13 anos, estudante da EMEF Madre Maria Imilda do Santíssimo Sacramento, na Vila Curuçá, zona leste de São Paulo, teve contato com o tênis graças à chegada do Instituto Patrícia Medrado à sua escola, quando o tênis era um esporte muito distante da realidade de todos os moradores da comunidade. Dez anos se passaram. De uma quadra de tênis adaptada, o menino pobre que nunca havia rebatido uma bolinha, foi parar nos Estados Unidos e hoje é um profissional formado em Matemática.

Fundada há 20 anos pela tenista baiana, nona do mundo em duplas na década de 1980, a organização atende, gratuitamente, crianças e adolescentes em várias regiões da cidade de São Paulo e também em Campos do Jordão, no interior do estado, utilizando a metodologia do esporte educacional. Uma década atrás, Rafael era um desses garotos.

Sem nunca ter imaginado jogar tênis na vida, ele foi convencido pelo irmão a conhecer o projeto do IPM que acontecia próximo a sua casa, no extremo leste da capital paulista. “Logo de cara vi que o Rafael tinha o dom para o esporte. Ele sempre estava no clube e tinha muita vontade de aprender os golpes, a maneira correta de se jogar e buscava sempre aperfeiçoar os movimentos”, conta Junior Lima de Santana, o primeiro professor de tênis de Gonçalves.

Segundo Junior, tanto Rafael quanto seus colegas levavam muito a sério o projeto e chegavam antes mesmo de as aulas começarem. “Foi uma febre o tênis naquela comunidade. Tínhamos o total apoio dos professores e da administração do clube e conseguimos ajudar muitos garotos, até aqueles que eram considerados indisciplinados em outras atividades”, relembra.



O garoto se tornou um dos destaques da turma e logo foi chamado para participar da equipe montada por Patrícia para disputar torneios, naquele que foi o primeiro centro de treinamento público da cidade, no estádio do Pacaembu. Foram meses tomando ônibus e trens todos os dias. Cada trajeto levava quase duas horas e era preciso conciliar os treinos com a escola. Mesmo assim, nada era capaz de pará-lo. Em pouco tempo, já conquistava os primeiros títulos em competições federadas e não demorou muito para surgirem convites para treinar em clubes privados. Sempre muito estudioso e dedicado, precisou dividir-se entre os livros e as quadras (alguns dias no Esperia, outros no Pacaembu), e tirou de letra.

Com tanta dedicação, quando menos esperava surgiu a grande oportunidade de realizar o sonho de sua vida: com apoio do Instituto Patrícia Medrado, da consultoria educacional Daqui Pra Fora e da Fundação Lemann, conquistou uma bolsa de estudos como atleta na Universidade de Chowan, na Carolina do Norte.

Por lá fez história: colecionou mais de 30 prêmios esportivos e acadêmicos, levou a faculdade pela primeira vez ao título regional de tênis e consequentemente à disputa nacional universitária. Tirou nota A em praticamente todas as disciplinas ao longo da graduação (somente um B durante quatro anos) e deu até aula de Matemática para os alunos que precisavam de reforço. Tudo isso em Inglês, língua que ele aprendeu sozinho, estudando nos ônibus e trens de São Paulo, em apenas seis meses.

Mesmo com toda a estrutura à sua disposição e uma qualidade de vida muito acima de tudo aquilo que vivera na infância, numa época de muitas dificuldades e precariedades, nem tudo foi fácil fora do Brasil. A adaptação a uma nova cultura, a saudade de casa e algumas dívidas exigiram muito suor para que conseguisse obter sucesso dentro e fora das quadras. “Tudo o que passei na minha vida me ajudou a encarar todos esses desafios da melhor maneira, acreditando sempre que era possível resolver as coisas e passar por cima dos obstáculos. Posso dizer que essa força e resiliência eu aprendi com o esporte e seus valores”, observou o jovem.

Recém-formado na América do Norte, depois de tantas voltas por cima e horas de trabalho extra, ele agora foi aprovado com uma bolsa integral para fazer mestrado em Engenharia Mecânica na Universidade Estadual da Virgínia (Virginia Tech), uma das grandes faculdades estadunidenses. A ideia é terminar o curso em dois anos e migrar para a área da aviação, seu grande objetivo desde que mudou de país.

Mas antes de dar início ao mais novo desafio de sua vida, Rafael aproveitou as férias para retornar ao Brasil e rever a família e amigos. Sem esquecer jamais as suas raízes e onde tudo começou, fez também uma série de visitas aos projetos do IPM, onde foi recebido por dezenas de crianças e jovens e contou sua história de vida, tornando-se espelho para uma molecada que sonha em repetir seus feitos ou pelo menos entender os atalhos e oportunidades que o esporte proporciona muito além da performance profissional.

Rafael Gonçalves é a prova de que o esporte é capaz de incluir, transformar, realizar sonhos e fazer a diferença na vida de crianças e jovens. Eles só precisam de uma oportunidade como essa.

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