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Rogerinho tem trilhado caminho para ser treinador
16/02/2022 às 07h30

Rogerinho encerrará sua carreira como tenista profissional logo após participação no Rio Open

Foto: Fotojump
Felipe Priante

Um dos brasileiros de maior destaque no circuito da ATP na última década, o paulista Rogério Silva está com os dias contados como tenista profissional. O veterano de 38 anos marcou sua despedida neste Rio Open, onde jogará duplas ao lado do gaúcho Orlando Luz, no que será sua última aparição como jogador no circuito. Sem jogar desde setembro de 2019, ele viu a pandemia o empurrar para a aposentadoria e ao mesmo tempo abrir horizontes para os próximos anos.

Em entrevista exclusiva para TenisBrasil, o paulista contou como foi o processo que o levou a decidir encerrar a carreira de tenista e que já tem planejado o futuro. "Estou morando em Los Angeles já vai fazer quase um ano, estou trabalhando com tênis com a molecada. Tem sido um momento legal, de experiência e novidades para mim. Já comecei a aprender essa parte pós-jogador profissional", disse Rogerinho.

Profissional desde 2003, o paulista chegou a ocupar o 63º lugar no ranking de simples e foi 84º nas duplas, em que conquistou seu único título, vencendo o Brasil Open de 2017 com o mineiro André Sá. Ele também tem dois vices, um no próprio Rio Open, em 2019, com o conterrâneo Thomaz Bellucci, e um no ATP 500 de Hamburgo com o espanhol Daniel Muñoz de la Nava (2012).

Em simples, Rogerinho teve alguns grandes momentos, como a disputa dos Jogos Olímpicos do Rio, onde venceu um jogo e depois parou no francês Gael Monfils. "Foi um divisor de águas para mim. Era uma coisa que não era esperada e muito difícil de ser alcançada. Eu lembro até hoje eu fazendo aquela voltinha nos túneis para entrar no Maracanã com o resto da delegação é uma coisa que não tem preço e nada vai apagar", relembrou.

Seu currículo também tem jogos contra dois dos três integrantes do Big 3, encarando o sérvio Novak Djokovic e o espanhol Rafael Nadal duas vezes cada. "A primeira vez que eu joguei contra um deles o medo era tomar 18 a 0. Você vê o nível de foco, atenção e de jogo que eles têm é muito legal. Eles também têm um grande respeito, mesmo enfrentando um cara com ranking muito inferior eles respeitam bastante", disse o paulista.

Veja a entrevista completa com Rogerinho:

 
 
 
 
 
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Aqui no Rio Open vai ser seu último torneio profissional. Como está a cabeça para essa despedida?

Está um turbilhão, a cada hora passa um filme diferente na cabeça, mas está sendo muito bacana e estou usando para fechar com chave de ouro. Gostaria de agradecer de novo o Lui Carvalho, o Pardal (Ricardo Acioly) e toda a organização do Rio Open por essa oportunidade. Não teria cenário melhor que esse. Estou aproveitando para treinar bastante e dar aquela última brincada com os amigos ainda como jogador.

Seu último torneio até então foi em setembro de 2019, antes da pandemia do coronavírus, e desde então você não jogou mais. Como foi esse processo de decidir parar e quanto tudo que aconteceu nesta pandemia influenciou sua decisão?

Eu estava pronto para voltar a jogar, com a equipe toda preparada em Buenos Aires para fazer a pré-temporada para o ano seguinte e aí veio aquela onda do corona que deu aquela complicada. Na volta (depois da pausa), eu já não estava com um ranking tão bom também, não tinha muito torneio e era difícil entrar e isso acabou pesando bastante nessa decisão, que na verdade não foi uma decisão, foi o tempo que acabou levando. Não conseguia entrar em torneios, estava ficando mais em casa e vi que talvez fosse o momento de encerrar porque não estava conseguindo fazer as coisas do jeito que gostaria.

Como foi esse processo mental de decidir realmente parar?

Eu simplesmente coloquei na balança. Acho que tudo o que fiz nessa minha carreira profissional eu me dediquei 110% todos os dias e sempre fiz tudo bem organizado, desde o treinamento, passando pela nutrição e pela parte física. A partir do momento em que vi que não estava conseguindo alinhar tudo e percebi que tinha que fazer um investimento financeiro muito alto para poder tudo o que achava necessário para estar na estrada de novo jogando, foi quando vi que não sabia se era o momento de arriscar de novo. Tenho família, dois filhos e já estou em uma fase avançada da carreira, então coloquei na balança e achei que era o momento certo para dar uma pensada. E aí é que veio essa certeza de encerrar a carreira.

Você teve uma carreira bem longa. Quais os momentos chaves que vai levar de lembrança?

Teve alguns momentos que foram cruciais, como a primeira academia que eu treinei em São Paulo, minha ida para Balneário (Camboriú) para treinar com o Larri (Passos) foi também um momento muito crucial da minha carreira, fiz uma mudança que precisava naquele momento. Depois fui morar na Argentina, que foi outra mudança muito válida, onde consegui aquele degrauzinho a mais de ranking. Foram alguns momentos chaves em que as decisões foram bem tomadas e acertadas. Quando eu sentia que estava faltando alguma coisa eu não tive receio de tomar essas decisões. E sabemos que as coisas acontecem muito rápido para um tenista profissional, às vezes você tem que tomar decisões que não são tão legais como mudar de cidade, de país e de equipe, mas também não pode ser muito brusco porque é perigoso. Acho que foram bem bacanas essas decisões.

E dentro de quadra, quais as melhores recordações?

Tem algumas aí como o primeiro ponto, entrar no top 100, que foi uma coisa que eu sonhava desde criança. Eu queria ver meu nome pelo menos 99 do mundo e poder depois falar para todo mundo que eu fui top 100. E aí vem as outras coisas que eu sempre gostei tanto como a Copa Davis, que é uma coisa que sempre sonhei, é uma competição que me identifico muito com a torcida e poder jogar pelo seu país, que é uma coisa muito bacana. Também teve as medalhas Pan-Americanas e não posso esquecer dos Jogos Olímpicos do Rio, que foi um divisor de águas para mim. Era uma coisa que não era esperada por mim, muito difícil de ser alcançada.

E ainda teve uma vitória lá...

Teve uma vitória ainda e depois pude jogar com o (Gael) Monfils com a quadra cheia. Vivenciar tudo aquilo no Brasil... Eu lembro até hoje eu fazendo aquela voltinha nos túneis para entrar no Maracanã com o resto da delegação é uma coisa que não tem preço e nada vai apagar.

 
 
 
 
 
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Quais os jogos e as vitórias foram mais especiais para você?

Tem alguns jogos, como os do US Open, que foram muito especiais para mim. Aquele contra o (Vasek) Pospisil com 7/6 no quinto set, com um tiebreak de mais de 10 minutos. Depois fui jogar em uma quadra central à noite, foi muito bacana. O do (Mikhail) Youzhny em Roland Garros para depois jogar com o Djokovic na segunda rodada, se não me engano (na verdade ele enfrentou depois Milos Raonic). Tem alguns jogos que são experiências muito bacanas, algumas sofridas, mas muito legais.

Você está parando, Thomaz (Bellucci) está na reta final da carreira e essa geração seguinte à de vocês ainda não conseguiu muito se firmar, exceto o Thiago Monteiro. Olhando ainda de dentro, o que você acha que aconteceu? Por que estamos meio que com esse vácuo de nomes no top 100?

Acho difícil falar, a molecada está trabalhando bastante. Óbvio que a gente quer ver o nome do Brasil lá em cima, mas temos que dar um pouquinho mais de tempo para eles. Hoje em dia o nível está muito alto e não podemos esquecer disso. O Felipe (Meligeni) está chegando aos poucos e acho que vai conseguir alcançar um ranking melhor. Os outros estão ali também tentando, é dar um pouquinho mais de tempo para eles e também fazer um trabalho forte com a base, para poder ter mais jogadores. Além de qualidade temos que ter um pouco mais de quantidade.

O que o Rogério vai fazer da vida na semana que vem?

Estou morando em Los Angeles já vai fazer quase um ano, estou trabalhando com tênis com a molecada. Tem sido um momento legal, de experiência e novidades para mim. Já comecei a aprender essa parte pós-jogador profissional. Estou estudando também um pouquinho e espero daqui algum tempo estar de volta ao circuito ou passando minha experiência para a molecada.

Mais especificamente, o que tem feito lá em Los Angeles?

Estou trabalhando em um clube, o Riviera Country Club, um clube bem famoso em Los Angeles, estou com a molecadinha mais nova, de 11 e 12 anos. Ainda quero um tempo para me reconectar. Já tive convites para começar a trabalhar como técnico no circuito de caras que estavam 50, 60 do mundo, mas acho que ainda não é o momento, ainda não é a hora. Preciso de um tempo um pouco fora, fazer uma reciclagem, aprender um pouco e depois estar de volta.

Como surgiu esse convite para trabalhar lá?

Vida de tenista, né. Tenho um amigo meu que mora lá, antes da pandemia estava lá para jogar Indian Wells, onde iria jogar o quali, e foi exatamente quando veio a pandemia, foi o primeiro torneio cancelado. Aí ele falou para eu ir para lá treinar no clube e treinar antes de ir para o quali, aí veio a pandemia e eu voltei para o Brasil. Gostei muito do clube e quando passou, tinham uns torneios UTR, como eles chamam, fui lá para jogar um pouco, pegar mão e com premiação boa. Aí era perto (da academia) e acabei indo lá para treinar. Depois o clube acabou me fazendo uma proposta, sentamos para conversar e passamos a programar esse próximo passo. Já faz quase um ano que estou lá neste próximo passo.

Já está com a família em Los Angeles?

A família ainda está no caminho, faz um pouquinho lá e um pouquinho no Brasil, ainda não está 100% lá.

Você cuida só da molecada lá? É um treino voltado para o alto rendimento ou social?

É de performance, para a molecada que quer jogar tênis de verdade. Tem uns americanos, outros do leste europeu que vão para lá. É competição, mas como é bem no começo não é uma coisa tão pesada. Isso é bacana porque desde esta idade já estão pensando lá na frente. É algo que precisamos fazer mais aqui.

Qual a grande dificuldade nesta nova faceta, agora como treinador?

A dificuldade é não poder jogar mais (risos). A dificuldade é que não está mais na minha mão, mas tudo tem um tempo e agora estou indo para esse lado. Antigamente eu treinava e ia lá para resolver ou não resolver os problemas. Agora eu tento passar a direção, os caminhos que eu acho, mas também tem esse tempo para pegar confiança com o treinador, o dia a dia, passar essa confiança para o jogador e mostrar que está no caminho certo. O jogador tem muitas dúvidas e o fato de eu ter jogado bastante tempo no circuito dá para encontrar os caminhos, mostrar que é normal não estar acertando a bola num dia, mas amanhã é outro dia. É treinar e dar tempo ao tempo. A dificuldade é falar e ver se o jogador está aceitando. E cada um tem seu tempo de aceitação. Ainda não estou trabalhando tanto, mas as crianças que estão comigo têm uma mentalidade diferente. Para treinar comigo precisa estar fazendo a rotina direito, respeitando a idade deles, mas já colocando um pingo de profissionalismo.

Tem alguém lá no clube que te chamou a atenção?

É difícil porque são muito novos, mas tem um menino lá de oito anos que joga muito bem e já joga na categoria de 12, 13 anos, mas é muito novo e não dá para você falar quem vai ser jogador ou não. Mas como tem bastantes jogadores, um vai puxando o outro e isso é super legal.

Voltando ao circuito, como você está vendo essa disputa pelo recorde de Grand Slam?

Acho muito sadia para o tênis e muito legal. Óbvio que todo mundo está torcendo para o Roger (Federer) e o Rafa (Nadal) terminarem na frente do (Novak) Djokovic, mas eu acho quase impossível isso acontecer, porque ele está um pouco à frente dos outros dois por conta de idade e lesões. O que eles estão fazendo pelo tênis, se você parar para olhar é uma loucura, são ícones que vão ficar para o resto da vida o que fizeram e como transformaram o tênis, Acho muito legal e sadia essa disputa.

Você tem um favorito?

Sempre gostei do Rafa, ainda mais depois dessa volta dele, que em setembro estava saindo de cirurgia e depois vai lá e ganha um Grand Slam em que ninguém apostava nele. Todos esses caras são de se tirar uns 30 chapéus, é uma coisa absurda. Ainda mais sabendo de como é difícil jogar tênis depois de ficar tanto tempo parado, com incertezas e dúvida se vai conseguir ter o mesmo desempenho de antes, se vai doer ou não, tem a falta de confiança e ritmo.

 
 
 
 
 
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E você pode falar com propriedade que depois dos 30 é mais complicado jogar.

É difícil, ainda mais com a molecada vindo do jeito que está. Não tem jogo fácil. Se vai jogar com um cara que é top 100 e não estiver bem, mesmo esses caras perdem. Óbvio que eles estão em um nível acima, mas eles precisam ir lá e mostrar sua performance. E está cada vez mais difícil. Mas esses caras seguem ganhando e não é um jogo ou ouro, ganham Grand Slam. É muito bacana ver isso aí, mas o tempo chega para todo mundo.

Dos três você jogou com dois. Como é entrar em quadra para enfrentar esses caras?

Joguei duas vezes com o Djokovic e duas vezes com Nadal, me faltou o Federer. A primeira vez que eu joguei contra um deles o medo era tomar 18 a 0. Você vê o nível de foco, atenção e de jogo que eles têm é muito legal. Lembro que o primeiro jogo foi contra Djokovic em Nova York, na quadra central, e tinha um vento considerável. Eu estava tentando colocar a bola em quadra e o cara jogando como se estivesse no quintal de casa. Eles também têm um grande respeito, mesmo enfrentando um cara com ranking muito inferior eles respeitam bastante.

Para finalizar, que mensagem você deixa para quem acompanhou sua carreira?

Primeiro eu gostaria de agradecer todo mundo que me ajudou de alguma forma, todo mundo sabe minha história e como foi difícil para eu poder jogar tênis e depois, graças a Deus, chegar a 60 do mundo e alcançar as conquistas que tive. Não fiz nada sozinho, mas é difícil agradecer nome por nome. Espero, num futuro próximo, poder passar todas essas experiências que eu tive, tanto as boas como as ruins, para essa molecada que quer jogar tênis e quer ser profissional. A mensagem que deixo para esses jovens é que acreditem no seu sonho, que se você acreditar e trabalhar você pode chegar lá.

Então num próximo Rio Open podemos ver o Rogerinho aqui só que como técnico?

Quem sabe, vamos deixar em aberto.

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