Trabalhos de longo prazo levam Guto e Mirra aos títulos em Paris

Guto Miguel (Foto: Daniel Kopatsch/ITF)

Guto Miguel fez história para o tênis brasileiro ao se tornar o primeiro jogador do país a conquistar o torneio juvenil de Roland Garros com a vitória contra o norte-americano Michael Antonius no último sábado. Ele também se torna o quarto brasileiro a vencer um Grand Slam no juvenil e assumiu a liderança do ranking mundial da categoria.

Para quem acompanha os resultados do circuito juvenil regularmente, a conquista não é uma surpresa. Com um calendário que equilibra os principais eventos do circuito juvenil e os primeiros níveis do tênis profissional, o goiano de 17 anos já havia vencido quatro grandes torneios na base e que são preparatórios para os Grand Slam, além de ter três títulos de duplas como profissional, incluindo dois challengers.

Em alguns momentos, como no US Open do ano passado e o Australian Open em janeiro, as lesões e o físico foram limitadores, o que foi identificado por ele e a equipe. Até por isso, ele fez um movimento importante no meio da temporada, retirando-se de alguns torneios para focar em um período de treinos e preparação física, como ele próprio explicou durante o LA Open, em São Paulo. “Estou precisando evoluir. Não é fácil deixar de jogar torneios aqui no Brasil, são oportunidades muito boas, mas tenho que pensar um pouco mais em mim, porque tenho muito a melhorar ainda”, disse o goiano, durante a entrevista coletiva em março.

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O treinador, Santos Dumont, também já havia falado a TenisBrasil em janeiro sobre a pré-temporada mais curta e a necessidade de adaptação à rotina no ano seguinte. “Fizemos uma preparação curta, mas muito bem planejada, porque o Guto vinha de um final de temporada intenso e bastante desgastante. Ele evoluiu muito tecnicamente, especialmente no saque e na consistência dos golpes, além de estar muito bem fisicamente e mentalmente”.

“O foco é preparação e organização do calendário. A ideia é começar a competir mais forte a partir dos próximos challengers. Este ano será de muito aprendizado, com mais foco nos torneios profissionais e apenas alguns eventos grandes do juvenil. É um novo passo. Vamos encarar competições mais difíceis, nos preparar melhor e começar essa nova etapa da forma mais sólida possível”, complementou Dumont no início da temporada.

No retorno ao circuito, foi um jogador muito mais estável, pronto para vencer os grandes torneios. E após a conquista, fez questão de valorizar sua equipe: “Existe muito trabalho duro por trás disso, de toda a minha equipe e de todos que me acompanham há bastante tempo. Estamos colhendo alguns frutos agora, mas sei que ainda é apenas o começo”.

O título de um Grand Slam juvenil e a chegada à liderança do ranking costumam abrir portas nesse momento de transição e a tendência é de que ele tenha ainda mais espaço em competições profissionais, além de se testar nos Grand Slam do juvenil para aproveitar o ambiente competitivo e a experiência de jogar como favorito. “Sei que é um torneio juvenil, sei que é o número 1 do mundo juvenil, mas ainda existe muito pela frente na minha carreira profissional. É importante aproveitar esse momento, mas manter os pés no chão e continuar trabalhando. Ainda não aconteceu nada no profissional”, lembrou ele, número 829 do ranking da ATP.

E não foi só por Guto que Roland Garros foi histórico para o tênis brasileiro. No mesmo torneio juvenil, Victória Barros e Leonardo Storck foram semifinais, garantindo pela primeira vez um trio de atletas nacionais nessa fase.

Victória, número 4 do ranking, se tornou a primeira brasileira a chegar tão longe desde Andrea Vieira em 1987. Já Storck, que eliminou três cabeças de chave, ficará muito próximo do top 20 e garante vagas em Wimbledon e no US Open. São resultados que mostram que o futuro do tênis brasileiro vai além de João Fonseca, que apesar da pouca idade já é visto como referência para os mais jovens.

Leonardo Storck e Guto Miguel (Foto: FFT)
Fonseca próximo do melhor ranking

A melhor campanha de João Fonseca em um Grand Slam também vai garantir uma boa recuperação no ranking. Depois de chegar às quartas de final em Paris, e de vencer nomes como Novak Djokovic e Casper Ruud, o carioca de 19 anos e número 1 do Brasil salta da 30ª para a 25ª posição, uma abaixo da melhor marca de sua carreira. Com a curta temporada de grama começando na segunda-feira, é importante se manter nessa faixa de ranking para ser um dos 24 primeiros cabeças de chave, evitando um duelo com o top 8 na terceira rodada.

Superado em um duelo de jovens contra o tcheco Jakub Mensik, Fonseca entende que boa campanha dão esperanças para a sequência da temporada. “Foi um Roland Garros muito positivo, chegando aqui sem muita esperança, só treinando a cada dia e tentando evoluir. Essas experiências foram muito importantes para mim. Posso jogar com esses caras e acreditar até o final. Isso só me traz mais força para seguir acreditando. Estamos fazendo um bom caminho e tem muita coisa pela frente”.

Enfim o primeiro Slam de Andreeva
Mirra Andreeva (Foto: Nicolas Gouhier/FFT)

Quem também colhe os frutos de um trabalho de longo prazo é Mirra Andreeva, que comemora seu primeiro título de Grand Slam aos 19 anos e tornou-se a campeã mais jovem em Paris desde Monica Seles em 1992.

Treinada há dois anos por Conchita Martinez, ex-número 2 do mundo e finalista do torneio em 2000, a russa mostrou evolução em diversos aspectos do jogo. Não apenas na parte física e técnica, mas também no controle emocional. Basta lembrar do WTA 1000 de Madri em que a jovem tenista dirigia-se à sua equipe no box dizendo que “não era uma campeã” durante a partida contra a húngara Anna Bondar. Aos poucos, ela vem evitando os pensamentos negativos e chegou a agradecer à psicóloga pelo primeiro titulo de Slam.

Antes da final, Conchita falou ao site de Roland Garros sobre a evolução do trabalho e a maturidade da jovem russa. “A Mirra se entende melhor em quadra e está indo muito bem. Ela ainda é muito jovem e muito, muito talentosa. Ainda tem muito espaço para melhorar, o que é maravilhoso de se ver”, disse a espanhola. “Ela continua amadurecendo, está melhor em todos os aspectos, física e mentalmente também. Ela está muito mais forte e tivemos muito mais tempo para trabalhar em algumas coisas nesses dois anos. Estou muito orgulhosa da atitude, do foco e do espírito de luta dela neste torneio”.

Conchita Martinez e Mirra Andreeva (Foto: Jean-Charles Caslot/FFT)

Em uma edição sem um favoritismo absoluto, Andreeva chegou a Paris credenciada por boas campanhas no saibro, especialmente o título em Linz e a final em Madri. E conforme as principais cabeças de chave iam caindo, agarrou a oportunidade impondo o favoritismo contra adversárias menos habituadas aos grandes torneios. A partir das quartas, venceu com autoridade a romena Sorana Cirstea, a ucraniana Marta Kostyuk – campeã de Madri e, até então, invicta há 17 jogos – e também a polonesa Maja Chwalinska.

A vice-campeã também é digna de destaque. Com nove vitórias em dez jogos e mais de 16 horas em quadra, Chwalinska mostrou ao grande público um pouco da realidade daqueles tenistas que tentam se manter nos torneios menores: Falta de patrocínio, dificuldade para pagar despesas com hospedagem e o aumento da exposição da noite para o dia.

Para uma tenista que já havia passado por dois longos afastamentos no circuito: o primeiro para tratamento da depressão e cuidados com a saúde mental e o segundo após grave de lesão no joelho, tudo era muito novo. O próprio empresário da jogadora falou, em entrevista ao L’Equipe, sobre a Maja Mania no país e do aumento significativo das propostas que surgiram nos últimos dias.

A partir desta segunda-feira, é vida nova, com outro calendário, mudanças de planejamento e expectativas. O período de adaptação pode ser difícil, mas a capacidade de superar obstáculos ela já mostrou antes e durante o torneio.

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Luiz Otávio
Luiz Otávio
1 mês atrás

E a saída do técnico da Vic. Teremos notícias?

Danilo
Danilo
1 mês atrás

Faltou falar da campeã júnior feminina, oktiabreva . Mais uma promessa russa que já tem um bom ranking no profissional. Abc

Evandro
Evandro
1 mês atrás
Responder para  Mário Sérgio Cruz

Esse fato não a torna “promessa tcheca”, não é? Às vezes, as pessoas não percebem mas dizem o que não queriam.

Ronildo
Ronildo
1 mês atrás
Responder para  Danilo

Sempre lembrando que a campeã juvenil feminina está com 17 anos, enquanto a Nauhany e a Victoria estão com 16. Então a lógica me diz que em RG de 2027 as duas brasileiras vão mostrar um nível superior ao que Oktiabreva mostrou. Só precisamos esperar os fatos lógicos, como o Comandante Spock.

Jornalista de TenisBrasil e frequentador dee Challengers e Futures. Já trabalhou para CBT, Revista Tênis e redações do Terra Magazine e Gazeta Esportiva. Neste blog, fala sobre o circuito juvenil e promessas do tênis nacional e internacional.
Jornalista de TenisBrasil e frequentador dee Challengers e Futures. Já trabalhou para CBT, Revista Tênis e redações do Terra Magazine e Gazeta Esportiva. Neste blog, fala sobre o circuito juvenil e promessas do tênis nacional e internacional.

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